B"H
TROPICATCHÊ, Torá com Gostinho de Chimarrão.
O Tropicasher é um fruto da miscigenação tupinikosher.
Carioca por parte de pai e gaúcho por parte de mãe.
Quando visitamos Porto Alegre, lá encontramos uma comunidade judaica robusta e receptiva, prestes a revelar ao mundo todo o seu maravilhoso potencial.
Sinagogas e Escolas Judaicas bem equipadas, com gente competente no timão, estão prontas a aconchegar os milhares de patricios que vivem às margens do Rio Guaíba.
Mas estes por sua vez devem dar o primeiro passo, pois a identidade judaica, assim como todas as coisas boas da vida, somente se conseguem com bom esforço e muita dedicação.
No sul sopra o Minuano, um vento frio que sempre pede por um bom chimarrão. A bebida é casher, mas devem ser tomados certos cuidados quando o tomamos no Shabat.
Além do Minuano, outro vento forte sopra contra a arvore da vida do povo judeu do sul, tentando arrancá-la de suas raízes: a assimilação e a falta de conhecimento da beleza da vida no Judaica e do estudo da Torá.
- Bah, tchê!
Isso mesmo. Por isso, inspirados e esperançosos em que os ventos da Torá comecem a soprar de novo no Sul do Brasil, nos propomos a fazer uma pequena análise do tema:
O ANALISTA DE BASHERT
Bashert é um termo em Idish que significa "destinado", muito usado para identificar episódios que parecem coincidência, mas que são pura Providência Divina.
Pode-se dizer que algo é Bashert praticamente em qualquer situação.
Veja este exemplo:
"- Tio Moishe, que bom que veio nos visitar depois de tantos anos...puxa, é mesmo Bashert que você está aqui, tio Moishe, estamos justamente trocando de carro e só nos faltam dez mil reais para fechar o negócio. Poderia nos emprestar essa grana para devolver a perder de vista, tio Moishinho?"
Gostaram do exemplo? Bem, mas o melhor uso da palavra Bashert é mesmo no caso dos Shiduchim.
Shiduch é a palavra hebraica usada para designar uma "apresentação com fins matrimoniais".
Nós judeus acreditamos que temos de fazer uma forcinha aqui embaixo para aproximar o nosso Bashert, a alma gêmea que HaShem (D-us) designou para a gente antes de nascermos.
O Talmud diz que o homem e a mulher são uma só alma antes dos dois virem para a terra e que aqui ficam se procurando até encontrar, mas que tem o livre arbítrio de se juntarem ou não.
Por isso é que a gente gosta de procurar nossa alma gêmea dentre outros judeus e faz questão de se casar debaixo da Chupá (cabaninha judaica que representa o um lar recém criado e abençoado por Hashem).
Convém lembrar que um não-judeu que se torna judeu dentro dos parâmetros da Halachá, a Lei Judaica, e aceita se enquadrar dentro da Torá e do Povo Judeu, é 100% judeu e pode casar com qualquer judeu/ia.
Mas nem sempre é fácil encontrar nosso Bashert.
Não raro, uma pessoa encara dezenas de "Shiduchim" até embicar na pessoa certa.
Para uns esse processo leva dias, para outros anos. Mas vale a pena seguir tentando.
O desgaste numa situação dessas é estressante. Se você não tiver um jogo de cintura enorme e um senso de humor três-patetiano, pode acabar desistindo de se casar com seu par judeu.
Mas nem tudo está perdido: Rabi Nachman de Breslav disse que jamais devemos perder as esperanças de tudo dar certo para a gente, principalmente neste terreno. Porque D-us quer.
Para facilitar mais ainda as coisas, lá na sua clínica decorada em tons Bege-Kotel, o maior especialista do mundo em curar ressaca pós-Shiduch, se prepara para mais uma sessão:
- O Analista de Bashert vai recebê-lo logo mais, preencha esta ficha por favor.
- Obrigado Léa Dvóra, já estou deletando do meu lap-top todos os telefones e e-mails das últimas meidales com quem saí nestes últimos quinze anos.
- Sugiro ter mais paciência, não faça nada precipitado! Vamos, relaxe. Quer tomar um chimarrão de Borsht acompanhado de uns Kichales enquanto espera?
Lea Dvora era a secretária do Analista de Bashert. Ele aguentava ela no emprego porque foi o seu primeiro Shiduch (que emperrou) e o primeiro Shiduch a gente nunca esquece.
- Entra, Ingale!!! - chamou o Analista com seu sotaque polish. Tira sapates e deita na divã. Yeshte está forado com pele de carneiro comprado na Shuk e que gventa qualquer chulé!
- Muito obrigado, estou mesmo precisando de um apoio moral.
- Nu, que houve? A meidale marcou de sair contigo e quando tu chegou ela disse que ia pra Gvarujá naquele hora e que era para você ligar de novo em Outubro?
- Pior.
- Ela te convidou para Pessach na amiga e quando tu chegou lá, tinha um bilhete dizendo que foram para Miami e que ficando sózinho tu ias poder entender melhor tua natureza íntima?
- Pior.
- Mas Ingale, isso só é pior que beigale dormido, tchê!!
O Analista seguia a teoria do beigale dormido, descoberta no dia que esqueceu um beigale na gaveta por duas semanas. Na primeira dentada viu tudo tão turvo que não conseguia diferenciar entre a Lea Dvora e o filho do rabino que entrava naquele mesmo momento para lhe presentear com o Calendário Judaico daquele ano. Decidiu que ia dar um beigale daqueles para quem tivesse qualquer trauma de Shiduch incurável.
- Então... a meidale marcou um encontro contigo e saiu com teu melhor amigo?
- Pior, quando liguei dizendo que ia buscá-la, ela me disse para ligar noutro dia porque ia assistir a uma palestra do Tropicasher.
- E o que tem isso de mais, Ingale? Tu devia era ir na palestra também!
- O que tem isso demais?! Quem vai dar a palestra sou eu! Que frustra tchê, fui desbancado por mim mesmo!
- Então qual é o trauma? É só tu ir na palestra e encarar a meidale durante todo o tempo.
- É que perdi a vontade de dar a palestra, por isso vim aqui.
O Analista jamais deixaria que o público perdesse uma palestra de Judaísmo por causa de um Shiduch malogrado, mas ficou com pena de dar o beigale dormido a este paciente porque aí é que a palestra ia mesmo pro beleléu. De repente, lhe veio uma luz:
- Léa Dvóra !!!
- É só dizer, tchê...
- O que tu vais fazer hoje à noite, guria?
- Ia numa palestra, tchê, mas se tiver um Shiduch para mim eu prefiro, né!
- Então tira os bobe da cabeça e pinta as unha porque hoje tu vai numa palestra e num Shiduch ao mesmo tempo, com um tal de Tropicatchê!
*
Rabi Nachman de Breslav disse que cada vez que uma pessoa sai com a outra para fins matrimoniais, ela está mais perto de encontrar o seu verdadeiro Bashert.
Hashem nos dá oportunidades a toda hora.
O resto só depende de nós.
Desistir para pegar o que está mais fácil é minar as chances de uma felicidade verdadeira.
É como dar as costas ao Minuano e deixá-lo arrancar nossas raízes e nos arrastar História afora
Fica aqui a nossa homenagem ao grande amigo de Israel Érico Veríssimo, pai de Luís Fernando, autor do Analista de Bagé quem inspirou nossa estorinha de hoje..
Texto de Paulinho Rosenbaum
e-mail: tropicasher@jewishbrazil.com