B"H
O PATINHO FREILECH
Uma vez fiz a seguinte mishigás: fui de carro de Miami a Toronto, em missão especial do Tropicasher.
Foram quatro dias de exaustiva viagem de carro em estradas retonas, sem buracos, cheias de policiais e pedágios... mas também cheias de comida casher em quase tudo que é biboca e posto de gasolina.
No meio do caminho fiz paradas estratégicas para descansar, rezar e rangar. Uma delas foi em Jacksonville, onde termina a Flórida e começa os Estados Unidos.
Ao chegar, estacionei o carro em frente a um Motel (lugar na estrada onde se dorme quando em viagem nos EUA) e rezei Minchá. Após a reza, abri o lanchinho casher que havia comprado em West Palm Beach (cidade que "elegeu" Bush), comi um delicioso sandubão de pastrami e joguei o resto do pão para uns patinhos pretos com cara verde, que nadavam no laguinho em frente ao Motel. Segundo a tradição judaica, devemos dar o resto do pão e do que comemos aos animais, ao invés de jogar no lixo.
Quase todos os patinhos eram pretos com cara verde. Só um era todo branco, como o do gibi.
Notei que o patinho branco não se aproximava dos naquinhos de pão que jogava aos pretos com cara verde, talvez por acanho, ou por medo dos outros. Então, a título de experiência, resolvi mirar alguns naquinhos perto do patinho branco e os atirei em sua direção.
Fiquei apreensivo, por temer que os patinhos pretos investissem na direção do branco e não o deixassem bicar os naquinhos de pão. Qual não foi minha surpresa, ao ver que os patinhos pretos com cara verde deixaram o branco bicar os naquinhos sem interferir ou se aproximar, para não estressá-lo.
Achei o gesto muito bonito e pensei em aplicar uma lição de Torá nisto:
Nesta parashá a Torá ensina que, quando uma mancha colorida aparecia na roupa ou na casa da pessoa, esta deveria chamar um Cohen para verificar a procedência da mancha e sanar o problema.
Desta maneira, podíamos saber diretamente onde havíamos falhado e o que fazer para consertar o erro.
As cores diferentes serviam então para que pudéssemos ver que algo está nos faltando - neste caso alguma virtude - e que devíamos consertar nosso erro para voltarmos a ser como éramos antes.
O Maharal de Praga nos ensina no seu comentário sobre esta parashá, que o corpo humano foi feito com a capacidade de adquirir moléstias, para que a alma, perfeita por definição por ser talhada no Céu, possa ver que algo está lhe faltando e apressar-se em evoluir neste sentido.
Sem as falhas e moléstias do corpo, a alma não seria capaz de notar suas limitações.
Por este motivo a Torá exige que um Cohen examine a Tzará'at que acomete a pessoa e dê o antídoto de acordo com a cor e teor desta aflição: pois é mais fácil que outra pessoa indique onde erramos do que o percebamos sózinhos.
A menos que tenhamos chegado a tal nível de respeito ao próximo dos nossos patinhos multi-coloridos, que instintivamente souberam fazer prevalecer a união da espécie, apesar das diferenças na cor.
A Torá espera o mesmo tipo de atitude entre todos os judeus.
Uma vez, o grande rabino Eliahu Rachamim Zini de Haifa, me ensinou o seguinte:
"Ahavat Israel é amar principalmente um judeu que pensa diferentemente de ti".
Já pensou se Israel tivesse este Zini para negociar nossa paz, em vez do gringo?
Sonha, Israel... que um dia teu dia chega!
Glossário:
Ahavat Israel = Amor e união entre todos os judeus, o que não exclui o respeito por outros povos.
Freilech = alegre, em Idish
Mishigás = locura, em Idish
Minchá = oração verspertina, consagrada pelo patriarca Isaque e rezada em geral antes do por-do-sol