B"H

 LENDAS DO FOLCLORE TROPICASHER

SUPERMENTSH!

Glossário no fim da página

"Quem faz uma Mitsvá quando tem chance... é um Mentsh.

Quem dá chance para mais uma Mitsvá... é um Supermentsh!"

 

 

Capítulo I -  A Explosão de Bomretirypton.

 

           As coisas não iam nada bem para a família Past-el.  Com esta coqueluche de supermercados oferecendo frutas fresquinhas direto da granja e aves fresquinhas direto do pomar, ninguém mais ia à feira para apreciar a comidinha gostosa da dona Cynder-el, que acordava todos os dias às dez horas horas da manhã, para chegar à frente da concorrência.

 

        Mas o pior ainda estava para acontecer: o país decidira incrementar a sociedade abrindo suas fronteiras para novos imigrantes, e aquele bairro, que mal dava para os negócios da primeira leva, agora teria que servir de âncora para gente de todo o tipo, falante de diversos dialetos e consumidores de outras variedades alimentícias, que haviam tornado Bomretirypton um alegre lugar para se viver.

 

        O único povo impedido de se assentar nestas terras foi a tribo Gerundi-açu*, que falava de um jeito tão arrepiante, que as galinhas deixavam de por os ovos e até o milho da pipoca deixava de estourar.

 

       Revoltado, o cacique Verbo Dobrado decidiu provocar uma rebelião: mandou todas as tabamoças da tribo Gerundi-açu entoar juntas e em uníssono o canto de guerra da tribo:

      

       "Nós vamos estar guerreando com vocês e vamos estar estando vitoriosos!"

        

       O povo corria para todos os lados tapando os ouvidos de tanta aflição, quando chegou a filha do cacique soltou esta pérola: "Tudo bem gente, eu vou estar pedindo ao Cacique para que ele esteja fumando o cachimbo da paz com vocês!"

 

        Ninguém agüentou. As pessoas batiam tanto com os pés no chão para não ouvir isso, que a terra começou a tremer. O golpe de misericórdia foi dado pelo pajé Queídeostra: "Se você quiser fazer a paz, digite 1; Se quiser pintura de guerra, digite 2; Se quiser ser escalpelado, digite 3, ou aguarde no cipó, que eu vou estar transferindo esta guerra para outra tribo".

 

       Foi uma hecatombe lingüística. A população de Bomterirypton explodiu de raiva, e, para se livrarem desta peste, os habitantes decidiram fazer uma vaquinha e contratar um batalhão de choque de professores de Português para fazer a nação Gerundi-açu dar no pé.

 

        O primeiro a chegar foi o prof. Hipérbole Anacrônica, que logo de cara pegou um megafone e disse:

 

        - Atenção tabamoças de Gerundi-açu: se uma pessoa pede algo no balcão, por exemplo, um camisa azul, e você não a tiver, jamais responda: "Eu vou ter só da branca", senão, "Temos da cor branca", porque "Eu vou ter" deve ser dito somente para algo que ocorra no futuro e você está querendo dizer que tem, no presente, da cor branca. Certo?

 

        Zóóóóóóóiiiiiiinnnn! O pequeno Q.I. começava a balouçar de um lado a outro nas pobres cabecinhas das gerundi-açuanas. Foi quando entrou em ação o segundo mestre de Português, o intransitivo prof. Sintaxe Avontade:

 

        - Estimado pajé Queídeostra: você pode dizer - por exemplo - que determinado jornal "vai estar amanhã" nas bancas, mas não pode dizer que eu "posso estar comprando" outro jornal agora, pois isto é inaplicável no idioma lusitano, visto que figuras de linguagem devem ser comedidas e não restritas apenas ao uso coloquial.

 

        Shhhhhcatabuuuuuuuuum!!!! Explodiram juntos os Q.I.s do cacique, do pajé, da filha do cacique e das tabamoças, provocando uma cratera do tamanho do caroço de uma azeitona verde no chão de Bomretirypton. A família Past-el aproveitou para mandar para o espaço seu letrado filho Sarapat-el, que já estava cansando de fritar bolinhos casher para vender na feira e que, deste modo, poderia cumprir sua verdadeira missão: salvar a humanidade da jeguice linguaceira e dos temíveis Gerundi-açu.

 

 

... continua no próximo capítulo.     

 

       

 

Glossário:

 

Mentsch = "gente" em Idish

 

Mitsvá = mandamento da Torá.

 

Gerundi-açu = nada contra qualquer tribo indígena, apenas uma alusão a esta monstruosidade que assola o Brasil, chamada gerundismo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

por Paulinho Rosenbaum