B"H  

TROPICASHER NA TV

 

Senhora do rabino

 

Arraial dos Crépales, DÉCADA DE SESSENTA.

 

        A pobreza espiritual era imensa no sertão brabo do interior do agreste, por isto Miriam do Carmel decidiu fazer Aliá - imigrar para Israel - aproveitando as ótimas condições que o governo dava naquela época. Seu sonho era vender material de construção para Olim Chadashim (novos imigrantes), Sinagogas e Ieshivót. 

        Miriam do Carmel tinha quatro filhos e uma filha: Reuvenaldo, Oyveizmiriato, Leibaleandro, Pletzalinio e Lealva. A situação no comunidade judaica daquela época era periclitante, por isto todos procuravam um lugar onde poderiam crescer espiritualmente. 

        Por isso, Miriam catou seus cinco pimpolhos, seu sidur com capa de couro de bode (bode é casher) e rumou rumo a uma situação melhor. Seu irmão já morava em Israel e era chofer de dona Yossefa, do Diário de Chadashót, um jornal da colônia tupiniquidish local. Ele viria pegá-la no aeroporto, mas não conseguiu encontrá-la, pois Miriam do Carmel havia molhado o papel com seu endereço durante uma parada obrigatória do avião em Atzures, onde tiveram que empurrar o aparelho para pegar no tranco. Chovia muito e mal conseguiram rodar a hélice do Boing 613 da Tropicasher Airlines, com destino a Yáma, Kédma, Tsafôna vaNégba (norte, sul, leste e oeste de Israel).

        A bagunça no aeroporto Bengurion era tamanha que Miriam do Carmel tornou-se alvo fácil da ignomiosa Marcharré Tedeixo, uma motorista de praça que se aproveitava dos imigrantes incrédulos para, assim que eles colocavam as malas no carro, dar uma marcha-à-ré e deixá-los a ver táxis, fugindo com seus pertences. Daí seu apelido.

        Miriam do Carmel mal havia colocado as malas no porta-malas, as luvas no porta-luvas e Lealva naquela cadeirinha para bebês, quando a perversa Marcharré Tedeixo deu uma marcha-à-ré e cavalo de pau ao mesmo tempo, dando no pira com Lealva, deixando Miriam do Carmel desesperada com seus quatro filhos, no meio da multidão. Marcharré mudou o nome de Lealva para Isabelit e a criou como se fosse a própria filha, junto à enteada Claudit. Para quem não conhece nome de mulher israelense, a maioria termina com it. 

        Por acaso dos incidentes, Miriam do Carmel acabou encontrando o irmão quando ficara presa num engarrafamento tipico de Tel Aviv. Ele dirigia o carro para um colunista do jornal Diário de Chadashót, que no futuro a ajudaria a encontrar Lealva.

        Depois de receber um empréstimo da Sochnut (Agência Judaica) para construir seu negócio de material de construção, Miriam do Carmel trabalhou sem parar, pois não queria ver Olé Chadash nenhum sem sua casa própria e também por causa do stress de haver perdido Lealva e também porque a Sochnut dava empréstimo para quem comprava casa e também porque ela só sabia fazer isso e também porque preciso encontrar mais motivos para encher essa estória de Vursht (linguiça judaica), como fazem os autores das novelas para aumentar o suspense.   

        Miriam do Carmel estabeleceu-se no Monte Carmel, em Haifa. Ganhou seu apelido antes de fazer Aliá, porque vivia dizendo que só queria morar no Carmel. Com o tempo tornou-se a maior atacadista e defendista de materiais de construção. Atacadista porque vendia pelo preço do atacado para os pobres e defendista porque defendia o direito de todos terem um teto para morar. Era a maior Tsadéket (justa) do pedaço e todos batiam á sua porta sempre que tinham uma abacaxi para descascar. 

        Seus quatro filhos cresceram, se desenvolveram e tomaram identidade própria: Reuvenaldo tornou-se um importante funcionário da Sochnut; Oyveizmiriato ficou dono de um restaurante Casher em Haifa, o famoso "Le beuf microscòpe", homenagem aos restaurantes de bifes casher de certos países.  Leibaleandro tinha um coração enorme e foi ser Gabai Tsedacá (contador de um fundo de doações) para um trilhardário que no passado fora bicheiro, ou seja, vendia bichos para matadouros casher. Pletzalínio só comia pletzale o dia inteiro na frente da TV apesar dos protestos da mãe, que pedia a ele que ao menos passasse aspirador de pó para colher os farelos, já que em Israel nem todos dispunham de serviços caseiros especiais de limpeza, típicos do Brasil. 

        Mas apesar de haver feito uma grande fortuna em Israel, Miriam do Carmo não se sentiria feliz enquando não encontrasse Lealva. Onde estaria Lealva neste exato momento?

... continua no próximo capítulo.

 

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