O Talmud
ensina que jamais devemos nos divertir as custas dos
outros, nem colocar apelidos que humilhem um (a) colega e
que Hashem devolve a uma pessoa o que ela faz de bem ou
de mal ao próximo, "Medida por Medida".
VILA
CASHERUPITA, ESTADO DE TOCANTIN POR TINTIN...
Arminda Cohen da Silva
Kuguel era uma judia assimilada.
Sua mãe havia desaparecido por completo num Spa
naturalista após uma dieta de Algas com Chrein e não
havia meios de encontra-la.
Desolado, o pai de Arminda a procurava por todos os
cantos do mundo.
Os anos se passavam e nada de noticias de Neolinda
Guittel da Silva Kuguel, a mãe de Arminda.
- Carta para o Sr. Ariovaldo Shloime da Silva Kuguel!
- Pode deixar que eu atendo, papai.
- Veja papai, uma carta do Rabinato da Vila. Quem será
esse cara?
- Deve ser algum cantor de samba, minha filha. Abra, por
favor.
Dai o afável leitor já vê que tanto pai quando filha
estavam mais longe do Judaísmo que técnico da seleção
de escalar o time certo...
Por isso serviram de presa fácil para a malvada Falah
Felina, que forjou a carta do Rabinato para se apossar da
fortuna dos Kuguel.
- Essa carta diz que o senhor deve se casar de novo... e
que estão lhe enviando um Shiduch de graça, com duas
filhas de brinde, papai.
Ariovaldo Shloime acabou se casando com Falah Felina, que
trouxe as filhas Yachneide e Shiksilda para morar de
graça na mansão dos Kuguel.
Pouco depois, o pai de Arminda recebeu uma proposta do
governo chinês para fazer um home-page personificado
para cada cidadão daquele pais.
Era mais um truque de Falah Felina para se apossar da
mansão. Havia forjado a proposta de emprego e ela mesma
lhe enviava um cheque a cada mês, o que o manteria
afastado de Vila Casherupita ate terminar os home-pages,
o que calculando por baixo deveria levar uns 824.326
anos.
De repente Arminda Cohen se viu em maus lençóis: fora
rebaixada para morar no Basement e teve de fazer os
serviços da casa para pagar o aluguel. Suas roupas
desgastaram e foi ficando cada vez mais Shleper, ao ponto
de suas irmãs adotivas afirmarem em tom de desprezo:
- Shleper ela, hein?
De tanto a chamarem assim, seu apelido acabou sendo...
Shleperela!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * ** * * * *
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Mas nem tudo estava perdido em Vila Casherupita.
Rebe Pai e Rebe Filho oravam pelo bem estar da comunidade
na Sinagoga local, enquanto tentavam bolar uma maneira de
casar os solteiros e solteiras do Ishuv, porque a
população judaica já estava minguando.
- Oh, meu querido e velho pai, que vergonha ainda estar
solteiro, dando uma bandeira enorme no Ishuv e sendo um
péssimo exemplo para a nossa comunidade!
- Ora não se preocupe, Rebe filho, vamos organizar um
Shabatão e resolver o problema de todo o mundo num só
fim de semana.
- Um Shabatão! Como estou orgulhoso do meu querido e
velho pai! Vou já passar um e-mail para todos os mocos e
moças Idish do reino!
.. "Shabatão" e um brasileirismo de
"Shabaton", um Shabat organizado por uma
Sinagoga ou Instituição Judaica, geralmente com um
propósito, como o de reunir Singles, e onde são
convidados palestrantes sobre temas judaicos ou de
interesse especial.
Rebe Pai convidou para o Shabatão um orador do P.T.
(Palestrantes do Tropicasher).
Haveria uma palestra após o Cabalat Shabat, outra antes
do Kidush, uma pequena predica na Seuda Shelishit e uma
palestra conclusiva após o Shabat, durante o Melave
Malca. (glossário no rodapé da pagina)
Tema do Shabatão:
"Se Israel fosse na China, já imaginou o tamanho do
Kotel?"
Foi um alvoroço total. As inscrições para o Shabatão
iam se esgotando.
- Yachneide! Shiksilda! Acabou de chegar um e-mail
convidando vocês para o Shabatão do Rebe Filho!
- Ele vai se casar comigo! Você tem cara de kneidale
murcho,Shiksilda!
- E você parece um beigale de Itu de tão gorda e com
buraco na cara!
Meninas, parem de brigar e vão preparar as roupas para o
Shabatão!
CAPÍTULO
II
A mansão dos Kuguel
tornara-se uma arruaça total. Yachneide e Shiksilda
levavam-se no tapa na hora da escolha da vestimenta ideal
para ir ao Shabatão de Rebe Filho.
- Shleperela, passe o vestido de lantejoulas e penas
verdes para mim, bradava Yachneide. Vou arrasar no
Shabatão!
- Vai sim, vão ate te convidar para presidir o Catifunda
Sport Club, cocoricava Shiksilda, enquando escovava sua
japona de napa azul.
- Voces estão estonteantes, minhas filhas, Rebe Filho
vai levar uma eternidade para escolher a sua preferida! -
uivava Falah Felina.
E iria mesmo
na verdade, acho que levaria duas
eternidades para escolher uma das duas, porque nunca Rebe
Filho se casaria com dois jacus premiados desse genero.
Seu Bashert, sua destinada, haveria se der uma menina
Idish de fino trato, bondosa, delicada e versada nos
nuances mais sofisticados da Torá.
Mas Shleperela parecia não ter as menores chances.
Até que de repente
Ptchou!!! Shleperela deu uma
topada com o dedão do pezinho esquerdo num velho baú de
seu pai, que estava jogado no Basement.
- Aaai! Meu pezinho delicado! Vou colocar Merthiolate
Transparente: Fuu, fuu, fuu (assoprando para não arder).
- Quando casar sara, Shleperela
- Quem disse isso?
- Permita me apresentar: meu nome é Ratinhale. Sou uma
imigrante. Moro no Basement há anos, mas como ainda não
tenho green-card não queria arriscar por a cara para
fora, mas o momento o exige. Vamos ver o que há nesse
velho bau.
Ratinhale conseguiu abrir o baú usando um clip desses
que segura kipá.
Qual não foi a surpresa das duas quando viram
um
lap-top novinho em folha!
- Vamos ligar na Internet, Shleperela! Isso vai nos
ajudar a sair daqui!
- O que é isso, Internet? Um campeonato Internacional de
Netos?
- Shleperela, vejo que você precisa saber alguns
segredos da vida.
Assim sendo, Ratinhale iniciou Shleperela no Mundo da
Cibernetica.
Em pouco tempo, Shleperela tornou-se uma cobra em
surfagem, pronta para driblar viboras como Falah Felina e
suas rebentas.
- Quero ir ao Shabatão de Rebe Filho, mas preciso saber
mais Torá, como faço, indagou Shleperela?
- Vamos clicar nos mecanismos de busca. Deixa ver
Torá
Saber
Shabatão
Aí está! Achamos o site:
www.jewishbrazil.com
Shleperela ficou maravilhada, nem sabia por onde
começar, de tantos artigos, ensaios, noticias,
informação cultural, social, internacional
- Vamos ver o que tem nesse nome esquisito: Tropicasher.
Click!
Como que num passe de mágica, o Mundo Maravilhoso do
Conhecimento Judaico se desdobrou perante a beleza
espiritual de Shleperela: a Torá, o Talmud, o Midrash, a
Ciência da Halachá, a ternura do Chassidismo, deixaram
Shleperela encantada. As horas pareciam segundos
Shleperela aprendia Torá doce e suavemente. O duro
trabalho na mansão Kuguel servindo aquelas infelizes
agora parecia uma colônia de férias.
- Você está quase pronta para ir ao Shabatão,
Shleperela. Agora só falta o guelt para pagar o
Shabatão, um vestido elegantérrimo, um carro da hora e
um Sidur para acompanhar a reza.
- Como faremos para ter tudo isso, Ratinhale? Não tenho
um tostão furado!
- Vamos ver
Dinheiro
Chessed (caridade)
Casamento
click!
Shleperela e Ratinhale roiam as unhas esperando a tela
fazer o download dos sites que encontrariam nos
mecanismos de busca sobre Chessed
De repente a tela começou a chuviscar
Ziiiip!
Kshshsh
Ptit!
- Aí está o site, Shleperela
www.fadas.idishemamadrinhas.com
Shleperela se cadastrou e explicou à Fada
Idishemamadrinha de plantão que queria ir a um Shabatão
e precisava de um guelt urgente. A resposta não demorou
a chegar:
- Shleperela, o Talmud nos ensina que a mitsvá de
Achnassát Calá (casar quem não tem posses) é uma das
mais importantes de toda a Torá! Hashem recompensa
imensamente a pessoa que ajuda um casal a contrair
nupcias, neste Mundo e no Mundo Vindouro! Por isso vamos
te dar uma enorme colher-de-chá on-line. Anota aí:
A Fada idishemamadrinha deu a Shleperela uma senha para
acessar uma conta bancaria especial de Achnassát Calá,
com crédito quase ilimitado.
Para começar, Shleperela pagou o Shabatao para ela e
para a Ratinhale.
Depois encomendou um vestido de gala especial na Shabaton
& Shabaton International, uma loja chiquérrima de
artigos para Shabatão na Dizzengof.
Shleperela logo recebeu em casa o seu Kit Shabatão
Superluxo:
- Assine aqui dona Shleperela: 1 (um) vestido de gala, 1
(uma) bolsa de napa estilo crocodilo (ecologicamente
correta), 1 (um) par de sapatinhos de cristal, 1 (um)
jogo de acessórios íntimos incluindo estojo de pintura,
1(um) pacotinho de lencinho de papel para chorar de
emoção quando receber a proposta de casamento, 1(uma)
Limusine, cortesia da Shabaton Rent a car, 1(um) Sidur de
cristal.
- A Ratinhale pode ir de chofer?
- Pode.
- Ôba!!! Festejaram as duas. Obrigada, moço! Dê
lembranças à dona Fada Idishemamadrinha, sorriam as
nossas felizardas, enquanto despachavam o moto-boy do
Cedex deixando-lhe um gorjeta de 200 reais.
- Só tem um detalhe, dona Shleperela
- Qual?
- O cartão de crédito on line que demos a você expira
a Meia-noite do Sábado, logo após o Shabat, em pleno
Melave Malca, no meio da palestra do Tropicasher. Antes
de ouvir o décimo-segundo toque de shofar do relógio
cukosher que Rebe Pai trouxe de Israel, deixa o teu
e-mail com o Rebe Filho e se manda, para não passar
vergonha na frente dos outros.
CAPITULO
III
Faltavam apenas
duas horas para comecar o Shabatão de Rebe Filho.
Solteiros e
solteiras idish de todo o reino se apinhavam na porta do
Shil para receber os endereços das familias que os
hospedariam durante o Shabatão.
Ouviam-se todos
os idiomas naquele Shil, pois o Shabatão era
Internacional.
Tinha até gente
que falava Portugues:
- Mr. Joaquim do Porto de Haifa Benfikovsky?
- Shtá lá!
- Você vai ficar na casa de uma familia que fala
Português, conterraneos seus do Nordeste do Brasil. A
casa deles e aquela ali virando a esquina.
- E qual é o nome da mshpúche, ó pá?
- Coronel Hershalino e Dona Bonretirina de Oliveira
Virgulinovitch!
Joaquim de Haifa
estava super contente com a familia que o hospedaria.
Talvez através deles encontrasse um Shiduch em terras
Tropicasher, pois encontrar casamento com mina idish em
Portugal estava estava mais duro que guefilte-fish de
bacalhau dormido.
Mas sua alegria
duraria pouco. As irmãs Yachneide e Shiksilda acabavam
de adentrar a Sinagoga dando baixaria e soltando fumaça
no maior estilo brega-shleper:
- Cheguemos, desencalhados da Judéia,
Samaria e outras freguesias! bradava Yachneide.
- Fala rabinão, como vai essa força? Deve estar
mandando um tshulent brabo a cada Shabat hein rabino,
porque estás com uma pança, que vou te contar!
mungava Shiksilda.
Rebe pai aceitou
o insulto calado, como manda o Talmud. Muitas vezes
Hashem nos testa, fazendo com que outros nos digam
improperios. Devemos tentar sempre manter a calma e se
sabemos como admoestar o próximo pacificamente e para
seu proprio beneficio, a Torá nos obriga a fazê-lo. Mas
se isso só fara piorar a situação ou nos deixará
nervosos, melhor calar.
Mas Joaquim
Benfikovsky sentiu-se na obrigação de intervir para
cumprir a mitsvá Que a honra do próximo lhe seja
tão cara quanto a sua
- Ora poish,
minhash przadash, o qurido rabino não shtá
a engrdaire tanto assim, talvez seja o rflexo
da sombra d lamparilha que shtá a iluminaire a
entrada do Shil.
- Mas vai pentear
bigode de patricio na estrada do Alentejo! - pipocaram as
irmãs em uníssono, envergonhando nosso simpatico
luso-judeu. (mais tarde, isso reverteria contra as duas,
pois tudo o que fazemos aos outros volta para a gente que
nem bumerangue, mais cedo ou mais tarde. Se alguma vez
somos insultados ou culpados por algo que acreditamos
não tenhamos mesmo cometido, sempre é bom vasculhar a
memória e fazer teshuvá).
Mas o Shabat se
aproximava ràpidamente e nada de Shleperela.
Rebe filho estava
irrequieto. Faltava meia hora para entrar o Shabat e
nenhuma das moças que estavam no Shabatão o atraiam,
apesar de serem de boa familia, instruídas e educadas.
Rebe filho não
procurava beleza exterior, pois conhecia de cor e
salteado o cântico do Rei Salomao Mulher de
Valor, cuja ultima estrofe diz que O charme
é uma mentira e a beleza é vã, pois a mulher temente a
Dus, esta sim, deve ser vangloriada.
- Não fique
triste Rebe Filho, Hashem nos traz a salvação num
piscar de olhos.
- Oh, meu querido e velho pai, que besteira a minha ficar
triste, o importante é que tantos os rapazes quanto as
moças que convidamos já estão se entrosando e levando
o maior papo. Quem sabe desse Shabatão sai um casório?
De repente, não
mais que repente, uma limusine com dezoito rodas de
magnésio, vidro fumée convexo e teto solar anatômico
para diante do Shil.
A porta da
limusine abria vagarosamente... um pézinho com um
sapatinho de cristal pisava delicadamente o calçadão,
onde esticaram um tapete celeste especialmente comprado
no Shuk em Jerusalem para esta ocasião, como que
esperando pela majestosa presença da Mulher de Valor,
tão sonhada por Rebe Filho.
CAPITULO IV
"Saiba
que o pagamento pelo bem que os justos praticam ainda
está por vir" - Talmud
***
A presença de Shleperela
no Shil logo arrebatou os olhares invejosos das irmãs
postiças.
- Quem é essa sirigaita,
Yachneide? - achincalhou Shiksilda.
- Sei lá mana, acho
que amanhã deve ser o bat-mitsvá dela aqui no Shil.
Vamos, não ligue, uma perua dessas não faz frente para
nós duas, bonitas e intelejumentes que somos.
Rebe Filho fazia cara de
muchocho no lobby do Shil, pois nenhuma mina idish o
havia agradado, ainda que ali estava a nata da sociedade
idish internacional.
- Meu filho, você está
quase perdendo a hora da oração de Minchá, vamos
anime-se!
- Papai, é possível
que Hashem tenha reservado minas idish para toda a
rapeize da coletividade judaica, menos para mim?
- Ora, jamais diga
isso, mein kind! Hashem tem tudo na medida certa e na
hora certa. Se ao invés de ficar com cara de tschulent
vencido você decidir se alegrar, seguramente Hashem
aproximará mais ainda o teu bashert!
- Tem razão papai,
vou ler um Tropicasher para me animar, tem algum sobrando
aí?
- Estou com a primeira
Lenda Tropicasher do milênio: "2001, Uma Idisherai
no Spa!"
Para vocês verem como
Rebe Pai tinha razão, nem bem Rebe Filho começou a ler
as primeiras linhas e já soltou uma gargalhada muda,
daquelas que o cara vai estourar de rir e recompensa de
Hashem por ele se alegrar veio no ato:
- Slichá, poderia me
informar por favor onde fica o lado das mulheres?
Rebe Filho estava por
fazer um sinal com o indicador mas ficou petrificado:
jamais havia escutado uma voz tão melodiosa, parecia
até que a conhecia desde sempre. Levantou o queixo bem
devagarinho e foi seguindo o trajeto da figura de
Shleperela dos pés à cabeça... ficou tonto, ofuscado,
mareado, seu estômago dava voltas, seus dedos tremiam,
sua gravata apertava, sentia como se sua barriga houvesse
imigrado para o Canadá...
- O... o... o... mado das
lulheres lica fá, digo, o lado das mulheres fica lá...
digo, o fado...
- Todá rabá! Nos vemos
depois da tefilá, be Ezrat Hashem...
Rebe Filho ficou
estubasufe! (estupefato, embasbacado, surpreso e feliz),
jamais imaginava que uma princesinha desde calibre
existisse, que fosse idish, datiá e que aparecesse na
sua frente na racha na mandioca, segundos antes de
começar o Shabatão. Correu para dentro do shil,
postou-se diante do Amud e começou a rezar, com fervor,
alegria e devoção.
A tefilá de Minchá foi a
mais bela já ouvida antes nas redondezas. Seguiu-se do
cânticos "Iedid Nefesh", "Lechú
Neranená" e "Lechá Dodi", entoados no
melhor estilo Tropichassídico, com um tamborilar de
dedos nas cadeiras do Shil, tipo pagode (*).
Antes de começarem a
Tefilá Arvit, Rebe Pai deu uma pequena drashá sobre a
importância de estarmos sempre felizes, explicando que
essa é uma grande mitsvá e que estar feliz significa
estar em paz consigo, com o mundo e com Hashem.
Rebe Filho não parava de
pensar naquela mina maravilhosa que apareceu no
Shabatão, por isso declinou seu lugar de Shaliach Tsibur
para Joaquim do Porto de Haifa, que concluiu as orações
em nusach dos Judeus Portugueses, uma espécie de Fado
Sefaradi.
Joaquim do Porto de Haifa
era das figuras mais queridas do Shabatão. Simples,
bondoso, sempre com uma palavra de apoio a um amigo,
procurava seu bashert em todos os portos. Percebeu logo
de cara que as irmãs Shiksilda e Yachneide iriam
boicotar a Shleperela, por isso bolou um plano. Após o
Kidush, chegou-se à Shleperela, apresentou-se e disse
assim:
- Ó raparidish, se
queresh terminaire baim eshta shtória, tainsh de me
ouvire.
Assim, combinou com
Shleperela que ele seria seu par durante o Shabatão,
assim desviaria a atenção das irmãs e também evitaria
o Ayn Hará. Para que tudo desse certo, deixou isso bem
claro para Rebe Filho e explicou que a Torá permite
estes expedientes, principalmente neste caso.
- Mas... e você meu bom
Joaquim de Haifa? Vai se sacrificar desta maneira por
nós, podendo perder a chance de achar seu próprio par?
Nenhuma moça vai se aproximar de você neste Shabatão
se souber que está com esse avião do exercito de Israel
que é a Shlé!
Sem problemas, ó Rebe
Filho. Eshtou até content' que tu já a chamas por nome
carinhoso.
Joaquim tinha razão,
Hashem sempre recompensa quem tem tamanha messirút
nefesh.
FINAL DA
ESTÓRIA E COMEÇO FELIZ DE OUTRA ESTÓRIA
O Shabatão de Vila
Cacherupita já ia de vento em popa.
Rebe Filho trocava olhares
e pensamentos amistosos com Shleperela enquanto as irmãs
postiças de nada desconfiavam pois Shleperela fingia
estar shiduchando com Joaquim do Porto.
Foi quando Rebetzin Mãe
resolveu fazer um shiduch entre Joaquim do Porto de Haifa
e Ratinhale...
- Meu querido Joaquim de
Haifa, o Shabatão já está quase na Seudá Shelishit,
você precisa conhecer uma moça Idish de boa família
com quem possa construir um lar.
- Maish Rebetzin Mãe, o
q' acont'cerá quando virem Rebe Filho a flertaire com a
Shleperela?
- Temos que confiar em
Hashem e fazer o que é honesto. A Torá é clara:
"Afasta-te da mentira".
Apenas eram ditas estas
palavras e Ratinhale aproximou-se. Apesar de já ter 32
anos, aparentava pouco mais de 31. A vida no basement à
espera do green-card não lhe tirara a alegria de viver.
- Joaquim de Haifa, esta
é Ratinhale, uma mulher de valor à caminho da
legalidade na America.
- Ó Ratinhale... ieshte
é o teu nom' vérdadeiru?
- Prazer em conhecê-lo!
Ratinhale é diminutivo de Raquelzinha Pitusquinha Levy.
- Ora poish, ieshte é o
maish belo nom' que já conheci! Quer se casaire comigo?
- Sim, meu amor!
- Mazel tov! Mazel tov!
Ecoavam os gritos de Boa Sorte pelos salões do
Shabatão. E todos cantavam em uníssono: "Numa
casa portuguidish o que importa... é a mezuzá na
porta!"
Dez a zero para Rebetzin
Mãe. Havia entrado para o livro dos recordes dos
Shiduchim.
***
O Shabat terminara.
Foi feita a cerimônia da
Avdalá e todos se preparavam para a ceia Melavê Malca,
onde o Tropicasher faria sua dissertação: "Uma
analise Talmúdica dos resultados das finais das Copas do
mundo e a previsão Tropicasher para a Copa de 2002".
Todos se apinhavam no
salão nobre do Shil para ouvir a palestra.
Yachneide havia dito a
todos que o palestrante era sósia do verdadeiro enquanto
Shiksilda havia espalhado a noticia que a palestra ia ser
noutro dia, só para causar reboliço.
Mas nada disso adiantou.
A palestra começou na
hora, às 22:30 e durou exatamente uma hora e meia.
Mal o Tropicasher
concluía o tema com uma brachá para a platéia e o
relógio Cukosher de Rebe Pai começava a dar doze
shofaradas, anunciando a meia-noite.
- Cukosher...!
- Cukosher...!
- Cukosher...!
- Ratinhale! Vamos!
Nosso cartão de crédito expira a meia-noite!!!
- Cukosher...!
- Espere por mim
Shleperela... Joaquim, eis aqui meu e-mail, keep in
touch, mein kind!!!
- Cukosher...!
- Cukosher...!
- Cukosher...!
- Shleperela! Onde
você vai? Fique mais um pouco ! Amanhã tem churrasco no
Shabatão!
- Cukosher...!
- Cukosher...!
- Não posso, Rebe
Filho, mas te darei o meu e-mail ... Shleperela corria
apressada...
- Cukosher...!
- Estou anotando! Qual
é...? Rebe Filho tentava alcança-la, mas não tinha
esse fôlego todo...
- Cukosher...!
- É... shleperela...
@....
- Cukosher...!!!
Terminaram as doze
shofaradas da meia-noite.
- Srta. Arminda Cohen da
Silva Kugel?
- S-s-sim...?
- Somos da Shabaton
& Shabaton International, viemos recolher o seu
Kit-Shabaton. Aqui estão dois bilhetes integração
Lotação-Carona até a casa de vocês. Thank you for
using our services.
Rebe Filho estava
desolado. Como encontraria Shleperela? A única coisa que
restava dela era meia capa de cristal de seu Sidur, que
caíra pelas escadarias quebrando em partes iguais.
No dia seguinte, uma ordem
de Rebe Pai ecoava por toda a coletividade judaica local:
- Todas as meidales do
reino devem ser visitadas!! Aquela cuja meia capa do
Sidur encaixar na meia capa de cristal em poder do meu
Shamash, poderá casar-se com Rebe Filho (se quiser).
Foi uma agitação geral.
As casas de restauração
de livros estouravam de pedidos de capinhas de cristal
pela metade.
O Shamash do Rebe ia de
casa em casa, pedia licença, beijava a mezuzá, entrava
e media a capinha do Sidur de Shleperela. Parecia não
encaixar em nenhum Sidur de Vila Casherupita.
A última casa a ser
visitada era a de Falah Felina e de suas rabugentas
filhas.
- Shalom Aleichem, vim
medir a capinha de Sidur para ver se sai Shiduch.
- Mede no meu, disse
Shiksilda, está na cara que sou eu a escolhida!
- Sinto muito
senhorita, mas sua capa além de ser de napa é da
revista "Narizes". Nada a haver com uma mina
idish do tipo que o Rebe Filho procura.
- Viu? Quem mandou
freqüentar banca de jornal ao invés de banco de
Yeshivá?
- No Sidur da
senhorita também não serviu, disse o Shamash a
Yachneide. Além de ser de plástico reciclado de bobe de
cabelo, cobre um fascículo da Revista
"Inimiga", especializada em Lashon Hará
- Posso tentar?
- Ora, mas que
Chutspá desta Shleper! - obtemperou Falah Felina
- O que importa são
as Midot. Vamos, dê-me seu Sidur, minha jovem.
- No que o Shamash ia
medir capinha com capinha, Falah Felina passou-lhe um
rabo-de-arraia, fazendo com que a capinha de cristal
caísse no chão e se espatifasse.
Já sabia que você
tentaria um golpe baixo destes, dona Felina, pois assim
como suas filhas espalham a discórdia falando Lashon
Hará dos outros, elas também falam mal da senhora!
O vexame foi tanto que
Falah Felina fugiu para Lashonarândia a pé, seguida
pelas filhas.
- Olá, pessoal, já
voltei da China!
- Papai!!! Pensei que
jamais voltaria!
- Ora, minha filha,
desconfiei desde o principio do golpe de Falah Felina,
por isso logo que cheguei à China abri uma franchising
de home-pages pessoais com 2 modelos básicos e fiquei
rico no ato.
- Que modelos
básicos, papai?
- Masculino e
Feminino.
- Armindale, minha
princesinha, o que fizeram com você?
- Mamãe!!! Que bom
que voltou, te acharam finalmente! Puxa, como você está
magra! Quando vem de frente parece que vem de lado e
quando vem de lado parece que já foi embora.
- Senhores, desculpem
interromper esta dramática re-reunião de família, mas
temos de experimentar a meia capinha de cristal no Sidur
da Shleperela. Vamos ver... serviu!!!
Obviamente, a capinha
serviu cem por cento.
Pois esta é uma estória
com final feliz e novo começo mais feliz ainda:
Joaquim de Haifa casou-se
com a Ratinhale, conseguiram o green-card e uma
concessão para criar um serviço eletrônico de
Shiduchim único no mund, a "Mazel-Fast -
Casamentos Virtuais On-Line".
E Shleperela... casou-se
com Rebe Filho no elengatérrimo Tropicasher Hall.
Logo após a Chupá, Rebe
Filho perguntou à sua amada:
- Shlé, (os dois já eram
íntimos) qual era o seu e-mail, afinal?
- Shleperela@jewishbrazil.com !
E viveram conectados pelo
mesmo Provedor para sempre, sorrindo e cantando:
"Navegar na net é
preciso, estudar Torá, também é preciso..."
Texto
de Paulinho Rosenbaum
GLOSSÁRIO
de termos judaicos e paralelos:
Shiduch =
Apresentação de moca a moco solteiro, com fins
matrimoniais.
Talmud = Compendio rabínico transmitido oralmente com
instruções para
cumprir os mandamentos da Tora e resolução de duvidas a
respeito.
Cohen = Sacerdotes responsáveis pelo trabalho no Templo
em Jerusalém.
Kuguel = Bolo Idish de batata ou macarrão. Tem doce e
salgado.
Chrein = Erva amarga com beterraba, geralmente se come em
Pessach.
Basement = Lugar nos EUA e Canada onde moram os
imigrantes.
Shleper = Mal vestido(a), maltrapilho(a).
Ishuv = Povoado Judaico, Comunidade Judaica.
Kotel = Muro das Lamentações em Jerusalém, único
resquício do Templo Sagrado"
Cabalat Shabat =
Oração e Ceia na entrada do Shabat, Sexta a noite.
Kidush = Santificação do Sábado com vinho, seguido de
rango.
Seúda Shlishit = A Terceira refeição do Shabat, antes
do seu termino.
Melave Malca = Rango tradicional pós-Shabat tipo
saideira. Segundo o Talmud
também em homenagem ao Rei David, que faleceu ao sair o
Shabat.
Bli neder = Termo em hebraico que significa "sem
jura", pois a Tora proíbe
fazer juramentos.
Shil = Sinagoga em
Idish.
Mishpúche = Familia em procuncia Idish. Em hebraico se
procuncia Mishpachá.
Teshuvá = Reconhecer um erro, contá-lo em privado a
D-us e procurar repará-lo.
Eshet Chayil = mulher de valor - a mulher
ideal no judaísmo tem bons valores e fé em Hashem
Bat-mitsvá =
celebra-se a maioridade religiosa das moças judias com
12 anos de idade
Minchá = oração
dita após o meio-dia e antes de anoitecer - estabelecida
por Itschak Avinu
Mein kind = minha
criança, em idish
Tshulent = feijoada
judaica comida aos sábados - fica esquentando a noite
toda da sexta-feira
Bashert = talvez o
termo mais importante desta estorinha: o/a destinado/a, a
alma-gêmea
Slichá = com
licença, perdão, sorry
Todá rabá = muito
obrigado
Tefilá = oração
Be Ezrat Hashem = com
a ajuda de D-us - é o B"H lá no
alto de cada pagina
Datiá = religiosa
Amud = coluna - aquele
pulpito onde a pessoa coloca o livro e começa a rezar
(*) = A lei judaica
diferem em opiniões sobre batucar no Shabat - o
Tropicasher segue a opinião do pode.
Tefilá Arvit =
oração dita depois de escurecer - foi instituída por
Yaacov Avinu.
Drashá = prédica
Shaliach Tsibur =
enviado do público para rezar em nome de toda a
congregação
Nusach = estilo - hoje
está na moda o nusach ashkenaz, sfard, baveli, teimani e
chabad
Ayn Hará = mal olhado
- o talmud avisa que um bom shiduch para dar certo tem de
ser discreto
Messirút Nefesh =
auto-anulação em prol do próximo e de Hashem
Rebetzin = espôsa do
rabino em Idish - em hebraico é Rabanit
Shamash = ajudante do
rabino
Lashon Hará = fofoca
- assunto totalmente proibido pela Torá
Chutspá = cara-de-pau
Midot = valores,
modos, caráter.
Chupá = um toldo
erguido encima dos noivos durante a cerimonia de
casamento judaica simbolizando que um novo teto, um novo
lar está sendo erguido no povo de Israel.
|