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Hashem Oz
Lamó Iten, Hashem yevarech et amó Bashalom*
Glossário de termos
hebraicos e tropicasher no final da pagina.
Doralit vivia num Moshav
em pleno Neguev, um daqueles que fizeram florescer o inflorescível. Seu maior sonho
era visitar outros paises, conhecer outras culturas, sair um pouquinho
daquilo que ela chamava de "isolamento orientemedíocre".
As prateleiras do seu quarto eram cheias de livros,
cadernos e folhetos sobre turismo. Ela parecia conhecer o mundo quase de cor,
mesmo sem nunca ter deixado Israel. Mas do que ela gostava mesmo era de música.
Certa noite, Doralit ouvia seu sucesso Tropicasher preferido, no quarto que
ficava na Aliát
Gag do seu casarão no Moshav:
– Iétser hará, tu é uma bugiganga, Iétser
hará, eu te pego pela canga!
– Iétser hará, tu é uma bugiganga, Iétser
hará, eu te pego pela canga!*
Doralit cantarolava alegremente o refrão balançando o pé
na ponta da cama, quando seu cachorrinho Kélev
começou a ganir sem parar, enquanto apontava para as janelas que batiam ao som
do vento típico do Neguev: "- iaveshshshshsh, iaveshshshshshsh". Isto chamou a atenção de Doralit, porque seu quarto
não tinha janelas que batiam como nos filmes americanos dos anos cinqüenta, mas
persianas israelenses daquelas que você move para cima e para baixo com
uma manivelinha em ângulo.
Kélev
não parava de ganir e Doralit não conseguia se concentrar na música, por isso
decidiu checar a janela. Qual não foi sua surpresa ao constatar num misto
de pavor e assombro, que a janela da sua Aliát Gag
não era mais aquela de manivelinha, mas uma janela daquelas que batiam, como
nos filmes americanos dos anos cinqüenta, com as cortinas esvoaçando para
dentro do quarto. Dura de medo, Doralit pulou para o colo de Kélev,
que a esta altura entendia ainda menos que ela o que estava acontecendo,
porque em geral são os cachorros que pulam para o colo dos donos. Mas
Kélev era um cão dinamarquês de 2 m de altura e Doralit não agüentaria o
seu peso. No meio deste papo todo, Doralit sentiu-se
atraída por um cheiro de falafel quentinho que a fez flutuar da janela do
quarto, rumo àquele odor inconfundível.
- Falafel de fubá... Meu
preferido!! – dizia Doralit com água na boca, tentando agarrar
as bolinhas de falafel que pairavam diante da sua janela. Kélev tentou segurá-la com a boca, mas quase rasgou
seu dubon.
O cheiro era tão penetrante
que Doralit acabou arrastando Kélev junto a si para o local onde aquele falafel
estava sendo frito. A fome era tanta que Doralit havia deglutido sozinha
quinze falafeis, sendo cinco deles de castanha-do-pará, como falafel de
sobremesa. Mal terminou de fazer a brachá
final e avistou uma mulher dançando em rodopios enquanto segurava as tranças.
- Quem é você? - perguntou Doralit.
- Eu sou Reica, a mulher vazia! Fico dançando e
rodando, enquanto espero que minha vida tenha um sentido maior.
- Realmente, reica
significa vazia em hebraico. Mas porque acha que dançar e rodopiar te trará
sentido à vida?
- Foi o Iétser hará
do Sul que me disse.
- Iétser hará do Sul?
- Sim, ele ronda pelo sul da floresta dizendo a cada um
como encontrar sentido para a vida.
- Mas o sentido da vida não está em rodopiar, senão em
saciar a alma.
- “Alma”? O que é isto? – perguntava Reica enquanto
rodopiava muito.
Doralit explicou a Reica que ela precisava de uma alma
para dar sentido à vida, pois a alma é o duto pelo qual fluem as bênçãos
Divinas e que carrega a missão de cada pessoa na terra. O corpo se delicia com
o falafel de fubá, mas na verdade, ele foi criado e posto na frente do homem
para que a alma se delicie eternamente com a concomitante brachá.
- E onde pombas eu consigo uma alma? – preponderou Reica.
Não acha que vou ficar rodopiando aqui a vida toda, acha?
Doralit não sabia o que contestar. Mal sabia onde estava
e porque ali estava, quanto mais porque a mulher rodava. Mas teve uma idéia:
convidou Reica para buscar sua alma junto a ela, enquanto descobria onde estava
e qual era o caminho de casa.
Saíram as duas meio sem rumo, quando após três quartos de
segundo, um vulto lhes surgiu adiante. Era um homem que andava em meias luas,
dando voltas de 180 graus em torno de si mesmo, ao invés de caminhar para
frente como todo mundo.
- Poderiam indicar onde fica a Estrada das Menorót de
Ouro? – perguntou o homem enquanto dava meia lua para frente.
- A Estrada das Menorót de Ouro!!?? – disseram as duas em
uníssono. De onde tirou esta idéia estapafúrdia?
- Foi o Iétser
Hatóv do Leste quem me indicou. Como vocês podem ver, sou apenas uma metade
humana, por isso só consigo andar em meia lua.
- E onde foi parar a sua outra metade? Perguntou Doralit
com um misto de sarcasmo e surpresa.
- Não sei, nunca a vi e foi por isso que consultei o Iétser Hatóv do Leste. Ele me disse que
o homem vem ao mundo com somente meia alma e que só se completa quando encontra
a outra metade. Até lá ele fica dando voltas na vida, mas quando a encontra,
começa a ir para adiante. O Talmud diz que todas as bênçãos do homem chegam por
intermédio da sua outra metade. Perguntei ao
Iétser Hatóv do Leste como fazer para encontrar minha outra metade e ele
disse que era só seguir pela Estrada das Menorót de Ouro que a encontraria.
Vocês sabem onde fica? Tenho pressa, porque não agüento mais andar em meia
volta.
- E eu? – retrucou Reica. Vivo dançando e rodopiando o
dia todo, acha que isso não cansa? Vamos lá, então!
Doralit percebeu que não estava ali por acaso. Teria que
ajudar estas pobres criaturas e resolverem os seus problemas e só então poderia
voltar para casa. O que era mais urgente para ela, agora passava pela
felicidade dos outros.
Continua no próximo capítulo...
Glossário de termos hebraicos e tropicasher:
Hashem Oz leamó yiten, Hashem yevarech et amó
Bashalom (Tehilim 29:11) – D-us
dará força ao Seu povo, D-us abençoará o Seu povo com a Paz (Salmos
29:11) .
Aliát
Gag – sótão.
Iétser Hará
– literalmente, má inclinação. É o impulso humano que o dirige para o lado mal ou
para as más atitudes e o egoísmo.
Iétser Hatóv
– literalmente, boa inclinação. É o impulso humano que dirige para o lado bom
ou para as boas atitudes e o altruísmo.
O Rabino de OZ assim como todas as Lendas do
Folclore Tropicasher são uma criação de Paulinho Rosenbaum