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Em muitas caixas de donativos está escrito: "Em favor de Rabi Meir Baal Haness".
Os membros da geração mais velha certamente ainda se lembram disso, da época de sua infância na Europa e no norte da África. Em quase todas as casas judaicas havia, então, uma "caixinha de Rabi Meir Baal ha-Ness". Quem foi ele e por que as caixas levavam justamente seu nome?
Há cerca de 500 anos, muitos judeus começaram a retornar a Eretz Israel. Foi um movimento primordialmente religioso, de pessoas que ansiavam por cumprir mais plenamente as mitsvót. A frase "No próximo ano na Jerusalém reconstruída" não era somente algo escrito no Sidur. Naquela época, Israel era uma terra destruída e deserta, na qual proliferavam pântanos e doenças. Muitas pessoas passavam fome, pois era realmente difícil encontrar meios para prover o sustento.
Os grandes sábios e líderes daquela geração eram Rabi Yossef Caro (autor do "Shulchan Aruch") e Rabi Moshé Alsheich. Ao ver aquela terrível situação, resolveram criar uma campanha especial (magbit) que tinha por intuito angariar fundos dos judeus da Diáspora para ajudar os habitantes de Eretz Israel (Sheelot Uteshuvot, Yehudá Yaalé, parte I, Yoré Deá, parágrafo 315).
Esta coleta de dinheiro foi declarada como uma contribuição em favor de Rabi Meir Baal ha-Ness. Em geral, a Halachá diz que todo indivíduo tem a obrigação de cuidar primeiro dos pobres de sua cidade (Baba Metzia, 71). Eretz Israel é considerada a cidade de todos nós.
Cada judeu é, antes de tudo, um habitante de Eretz Israel. Por isso, todos aqueles que ainda não podem imigrar têm a obrigação de ajudar no sustento dos habitantes de Eretz Israel.
Assim, foram criadas na Diáspora caixas de donativos em favor dos judeus que viviam em Israel. Os codificadores rabínicos advertiram que esta norma não deveria ser modificada (ver, por exemplo, Chatam Sofer, parte 6, cap. 27).
Rabi Meir Baal ha-Ness foi discípulo de Rabi Akiva e genro de Rabi Hanina ben Teradion. Todo ano, no dia 14 de Iyar (dia do seu falecimento), milhares de judeus visitam seu túmulo na cidade de Tiberíades. Ele viveu após a destruição do Segundo Templo, numa época muito difícil para o Povo Judeu.
Os romanos procuravam vencer a obstinação dos judeus que desejavam preservar sua singularidade enquanto povo e não se assimilavam. Tentaram educar os judeus para o "progresso", convencendo-os a abandonar os princípios de sua religião que, aos olhos dos romanos, eram considerados ultrapassados.
A observância do shabat, a cashrut e o estudo da Torá foram proibidos sob pena de morte. Os romanos não compreendiam por quê era tão importante para os judeus preservar a sua religião, já que para eles o nacionalismo judaico não era algo pelo qual valesse a pena morrer (Tratado Avodá Zará, 18).
Apesar da severa proibição, Rabi Hanina bem Teradion continuou a ensinar a Torá às ocultas, até ser preso pelos romanos. Eles o encontraram justamente em meio a uma aula de Halachá, diante de centenas de alunos, o livro da Torá ao seu lado. A fúria romana foi terrível. Todas as suas tentativas, de transformar os judeus num povo igual aos outros fracassavam. Decidiram, portanto, castigar duramente Rabi Hanina bem Teradion e toda a sua família, a fim de dissuadir os outros judeus.
Ele foi condenado a fogueira, em praça pública; foi incendiado com o Livro da Torá em suas mãos, seu corpo coberto por esponjas encharcadas de água, para que morresse lentamente e em grande sofrimento. Enquanto ardia em chamas, Rabi Hanina disse a seus discípulos que via as letras da Torá ascendendo ao céu.
Também a filha de Rabi Hanina foi duramente castigada pelos romanos, presa e enviada para um prostíbulo. Ainda assim, a força do espírito judaico não arrefeceu. Somente um povo dotado de uma consciência religiosa tão profunda seria capaz de superar tais sofrimentos.
Para poder libertar sua cunhada, Rabi Meir disfarçou-se e entrou no prostíbulo. Para seu espanto, descobriu a força espiritual da jovem que, apesar da situação em que se encontrava, conseguira manter sua virtude intacta, utilizando vários subterfúgios para afastar os homens.
Rabi Meir tentou subornar o guarda, porém este temia o castigo que certamente receberia se os romanos descobrissem o fato. Rabi Meir prometeu-lhe que Hashem o salvaria se ele dissesse "D’s de Meir, ajuda-me" quando estivesse em perigo. Para comprovar a veracidade de suas palavras, Rabi Meir entrou numa jaula de cães ferozes que guardavam a prisão.
Quando saltaram sobre ele, querendo matá-lo, clamou: "D’us de Meir, ajuda-me". Os cães imediatamente o deixaram em paz. O guarda acreditou na promessa de Rabi Meir e libertou a jovem. Tão logo o fato foi descoberto, os romanos condenaram o guarda a morte. Toda vez que tentavam enforcá-lo, ele gritava: "D’us de Meir, ajuda-me" e a corda se rompia. Os romanos também procuraram matar Rabi Meir, mas ele sempre conseguia se salvar, graças a milagres especiais.
Nosso mestre, o Rabino Shmuel Eidels, explica que a frase "D’us de Meir, ajuda-me" não alude apenas ao mérito de Rabi Meir. O milagre ocorreu igualmente por mérito de Rabi Hanina e graças à probidade da jovem. O nome "Meir" deriva, em hebraico, da palavra "Or"(Luz) e essa frase significa: D’us, que sempre nos ilumina nas trevas do exílio e do sofrimento, também nos atenderá agora.
Os judeus passaram por semelhantes e terríveis aflições na época do domínio grego, quando Hashem nos iluminou com a luz dos milagres da Festa de Chanuká. Este foi o sentimento que levou Rabi Yossef Caro e Rabi Moshé Alsheich a instituir a coleta de contribuições para os habitantes de Eretz Israel.
Na escuridão do exílio e das perseguições, devemos nos lembrar que a luz divina voltará a nos iluminar em Eretz Israel. É lá que se encontra a esperança do Povo Judeu e seu renascimento. Do mesmo modo, dizemos em nossas preces: "Uma nova luz iluminará a Tzion e todos nós teremos logo o privilégio de recebê-la"!
Rav Moshe Bergman
BNEI AKIVA - SÃO PAULO