B"H

 

KAPALEZINHO VERMELHO

 

         Zinho era um negociante experimentado. Há anos Zinho vinha notando que o mercado de artigos Torácicos estava se expandindo e que Judeus de todas as tendências tendiam ao estudo da Torá. Por isso, resolveu revolucionar o mercado, criando uma multinacional de fabricação de kapales.

    Para baratear o custo por peça, Zinho comprou um lote de tinta colorida para produtos têxteis do partido comunista da extinta União Soviética, quando  de sua última visita a túmulos de Tsadikim na Ucrânia.

    Qual não foi a sua surpresa, quando ao liberar o lote em Santos, Zinho constatou que todas as 500 latas que havia comprado na maior barganha, eram de tinta… vermelha!

    Também, o cara vai me negociar tinta com o partido comunista, meu!

    De que cor ele queria que viessem as tintas?

    Mas, como todo bom comerciante, Zinho não esmoreceu. Decidiu montar um esquema de marketing especial em cima da idéia, de que a onda agora era só usar kapale vermelho.

    Foi assim que surgiu o slogan:

"KAPALES ZINHO - O CHIC AGORA É SÓ KAPALE VERMELHO!!!"

    Com o tempo,  Zinho passou a ser conhecido como "Kapalezinho Vermelho".

    Dona Sara, sua mãe, achava que fazia muito tempo que Zinho não visitava o zeide, que morava na Floresta… da Tijuca.

— Kapalezinho Vermelho, leve essas bolinhas de kneidale e esse  guefilte-fish fresquinho para o teu zeide que mora na Floresta! — recomendou dona Sara.

A mitsvá de honrar pai e mãe Isso inclui "zeides" e "bobes" (avôs e avós) que são os pais dos nossos pais. O Talmud ensina que devemos prover as necessidades físicas e espirituais dos nossos pais com alegria e presteza.

… Kapalezinho Vermelho pegou a cestinha que dona Sara havia  preparado para o zeide, e saiu pela via Dutra com o seu carro "zerinho" rumo à Floresta (da Tijuca), cantando assim:

" Pela via Dutra, eu vou com o zerinho, levar esse rango para o meu zeidinho...

Ele mora longe, nos "States" ia maneiro… mas aqui na Dutra levo o ano inteiro!"

    Apesar dessa alegria toda, Zinho tomou 3 multas logo de cara: uma por excesso de velocidade, uma por passar pelo bafômetro e outra por estar sem cinto. Kapalezinho Vermelho não teve culpa nos incidentes: para poder chegar antes de anoitecer no Rio, havia devorado em segundos uma bacia de kuguel doce que dona Sara recém havia preparado, sem deixá-la esfriar.

    O efeito laxativo do kuguel quente acometeu Zinho de uma vontade olímpica de ir ao banheiro. Zinho pisava no acelerador e no breque com os pés trocados porque cruzara as pernas para evitar sujar o seu "zerinho". Mas isso fez com que o zerinho disparasse a 240 Km/h e isso chamou a atenção de um guarda rodoviário, que deduziu que Zinho estava bebum.

    Ora, Zinho só bebia vinho de Kidush no Shabat (um bom Merlot israelense), por isso passaria fácil pelo teste do bafômetro. Mas sua imprudência o fez quase atropelar o guarda, assustando-o a ponto de faze-lo jogar o bafômetro longe, que foi parar embaixo das rodas do zerinho de Zinho, que empizzou o  bafômetro, transformando-o numa panqueca de plástico com ponteiro.

    Quando o guarda finalmente alcançou Zinho, não comprou a idéia que ele tinha pressa para ir ao banheiro por causa do kuguel e que por isso enfiou por engano seu suspensório na fenda do cinto de segurança, que não viu o bafômetro cair à frente do carro e nem tinha como controlar a velocidade de um carro a 240 km/h, com o pé esquerdo no acelerador e o direito no breque.

    O guarda não se convenceu. Zinho levou as 3 multas do mesmo jeito. Mas Zinho confiava em que Hashem faz tudo para o nosso bem. - Gam zu le Tová (isso também é para o bem), disse Zinho e prosseguiu com fé e alegria rumo ao seu querido zeide.

    Sua recompensa por confiar em Hashem não tardou a chegar.  Um patrício americano estava de visita a S. José dos Campos para comprar um avião no ITA e já se encontrava a caminho do Rio de Janeiro para passar o Shabat, quando notou perplexo que havia um judeu de kipá sendo multado, do mesmo lado da estrada. O patrício se achegou a Zinho e perguntou em idish:

    - Nu?  (tradução: Oi amigo, sou novo por aqui, o que houve, te multaram?)

    Zinho lhe contou o que houve. Também revelou ao nosso patrício que tem um Beit Chabad ali mesmo, em S. José dos Campos, orquestrado na época pelo grande Rabino David Azulai. O patrício ficou tão contente, que se ofereceu para pagar todas as multas de Zinho e ainda por cima encomendou 5.000 kapales para a Sinagoga da sua cidade!

 

    Se Zinho pensava que seus problemas terminavam por ali, e que a viagem para cumprir a mitsvá de Kibud Horim (honrar os pais) ia lhe sair barata, estava redondamente enganado. Seu arqui-inimigo nos guisheft (negócios), que tentava fazê-lo abrir concordata para ficar sózinho no negocio, soube de sua viagem e tratou de tirar proveito da situação. 

    Tratava-se do famigerado... Lábio Mau! Era conhecido assim porque dizia muito "lashon-hará" (comentários maldosos sobre outrem, ainda que verdadeiros).

 


(intervalo para uma breve palavra de Torá sobre o assunto):

     É proibido fazer quaisquer comentários sobre a vida alheia, mesmo que verdadeiros, mesmo que não pareçam nada de mais, mesmo que a pessoa concorde. Um conhecido sábio que trata do assunto é o Chafetz Chaim, viveu na Polônia na primeira metade deste século (da era comum). Sua obra, "Shmirat HaLashon" explica tim-tim por tim-tim todas as regras de se educar uma boa língua, assunto dos mais importantes no Judaísmo. 


    Bem, o Lábio Mau havia chegado no metiê dos kapales depois de Zinho, por isso tentava roubar-lhe a clientela espalhando por aí que Zinho pagava os empregados com a atraso, descumprindo a mitsvá de pagar os serviços de um diarista em dia (beyomó titên s´charó), o que tornaria os Kapales Zinho não casher.

    Mesmo que fosse verdade, Lábio Mau não tinha direito de contar lashon-hará sobre Zinho. Neste caso, ele teria a mitsvá de mostrar de maneira amistosa ao Zinho seu erro (mitsvá da tochechá) e não sair por aí lashonarando-o.

    Talvez por isso seus negócios sempre iam mal enquanto Zinho galopava nas vendas.

    Mas a Superkapales Corporation, de Lábio Mau, estava sempre endividada, pois torrava seu capital em fotos com soçaite carioca ao invés de se concentrar nas vendas.  [Hashem é meticuloso em premiar os que cuidam da língua]

    Zinho já estava no meio da estrada quando vira um helicóptero passando por cima do seu carro: era o Lábio Mau, tentando chegar antes ao zeide. Como cumpria a mitsvá de julgar favoravelmente as pessoas, Zinho imaginou que a Superkapales teria um bom guisheft a vista no Rio e nem se preocupou. Até lhe desejou sucesso nas vendas.

    Os planos do Lábio Mau eram ignominiosos: ao chegar até o zeide, logo lhe presenteou com uma entrada para um concerto de "Chazanut" no Maracanazinho, sabendo que o zeide era vidrado em Chazanim (Cantores Litúrgicos Judaicos).  Após livrar-se do zeide, Lábio Mau entrou debaixo das cobertas e ficou a espera de Zinho.

    Quando chegou, Zinho notou a figura estranha que estava na cama, e pensou: "Puxa, o zeide deve estar doentinho mesmo, os kneidales e o guefiltefish vieram bem a calhar". Dirigindo-se ao zeide com a cestinha nas mãos, perguntou:

- Zeide, porque esse nariz tão grande?

- É de tanto cheirar "bessamim" na Avdalá , meu netinho...

-  Zeide, porque essas orelhas tão grandes?

-  É de tanto escutar atrás das portas dos out..., digo, de tanto escutar Chazanut!

- Zeide, e porque esses olhos tão grandes?

- É de tanto ler Tropicasher, meu netinho!

    Zinho ficou desconfiado: o zeide não tinha Internet, por isso ele havia encadernado todas as edições de Tropicasher para lhe dar de presente. O Lábio Mau percebeu a rata que deu e se preparou para o bote, quando Zinho balbuciou a ultima pergunta:

- Zeide, e porque essa boca tão grande?

- É PRA DIZER BASTANTE LASHON HARÁ, MEU IRMÃO!!!!!   

Dito isso, Lábio Mau saltou da cama, abriu as janelas da casa, pegou um possante megafone e gritou:

    - Atenção pessoal! Kapales Zinho é fria da braba! Amarrota e solta os fios logo na primeira rezada!!! Compre Superkapales e vá para o Céu sem escalas!!

Foi quando ouviu-se outro megafone, mais possante ainda, do lado de fora da casa, com direito a eco, que nem nos filmes:

" - Atenção VOCÊ, Lábio Mau! Está cercado! Saia da casa de braços levantados e com as mãos tapando a boca!"

    Ora, ora, mas se não era o comando especial da temível T.O.A.L.H.A. (Turma Organizada Anti-Lashon-Hará e Abobrinhas)!

    O zeide desconfiou logo de cara, quando viu nas entradas que aquele concerto de Chazanut... era em Tel Aviv! Isso foi o suficiente para que ele discasse logo para 1-800-TOALHA.

    Lábio Mau foi imediatamente envolvido com o L.E.N.Ç.O. (Linguajar Espiritual, Nunca Caluniando os Outros), e teve de passar uma semana na sede da T.O.A.L.H.A., até saber de cor toda a obra do Chafetz Chaim sobre a proibição de lashon hará.

    O resultado foi excelente: Lábio Mau fez Teshuvá (correção dos atos de acordo com a Torá) a tal ponto, que passou a ser conhecido por um novo nome: Ohev Israel! (aquele que tem amor por todos os Judeus

    Ao chegar a S. Paulo, Ohev Israel foi direto até Zinho pedir-lhe desculpas por todo o incômodo e perguntou-lhe como podia lhe recompensar pelo mal que havia feito.

- Meu querido, você jamais me fez mal algum. Está perdoado. Se foi para você fazer Teshuvá e ser o cidadão respeitável que é hoje, todo esse episódio valeu a pena!

            Assim, nossos dois amigos resolveram juntar os seus guisheft e lançaram ao mundo a possante franquia: Superkapales Zinho Multicor!

    .... E ficaram ricos para sempre.

                                                                                                                            * * *

Essa história é dedicada ao meu zeide, o Vovô David, que chegou ao Rio de Janeiro vindo da Polônia, e que costumava doar parochet (mantos que cobrem a Arca onde fica a Torá) a sinagogas do interior de S. Paulo, entre elas, Taubaté. O zeide partiu quando eu tinha cinco anos de idade, e a única coisa que guardo dele é o seu velho Sidur (livro de rezas) de 1932, que mandei restaurar, com o qual rezo com tanto gosto e que espero poder passar para meus filhos, se D-us quiser.

"Quem será o 'zeide' dos nossos netos?" diz uma canção judaica atual.

Se cuidarmos e cumprirmos a nossa Torá com carinho, sem ter vergonha de aprender, e se esforçando hoje um pouquinho mais que ontem para cumprir mais uma mitsvá, um dia também poderemos ser "zeides, ao invés de sermos simplesmente "vovôs".

Zaiguezint,

Paulinho Rosenbaum

 

Conheça também as estórias da Schleperela e da Bronca de Leve clicando em www.jewishbrazil.com/lendas.htm

 

 

 

 

TROPICASHER, Tora com Gostinho Tropical

Nosso e-mail multicor: tropicasher@jewishbrazil.com

 

KAPALEZINHO VERMELHO

 

     Zinho era um negociante experimentado. Há anos Zinho vinha notando que o mercado de artigos Torácicos estava se expandindo e que Judeus de todas as tendências tendiam ao estudo da Torá.

Por isso, resolveu revolucionar o mercado, criando uma multinacional de fabricação de kapales.

Para baratear o custo por peça, Zinho comprou um lote de tinta colorida para produtos têxteis do partido comunista da extinta União Soviética, quando  de sua última visita a túmulos de Tsadikim na Ucrânia.

Qual não foi a sua surpresa, quando ao liberar o lote em Santos, Zinho constatou que todas as 500 latas que havia comprado na maior barganha, eram de tinta… vermelha!

Também, o cara vai me negociar tinta com o partido comunista, meu!

De que cor ele queria que viessem as tintas?

Mas, como todo bom comerciante, Zinho não esmoreceu. Decidiu montar um esquema de marketing especial em cima da idéia, de que a onda agora era só usar kapale vermelho.

Foi assim que surgiu o slogan:

"KAPALES ZINHO - O CHIC AGORA É SÓ KAPALE VERMELHO!!!"

Com o tempo,  Zinho passou a ser conhecido como "Kapalezinho Vermelho".

Dona Sara, sua mãe, achava que fazia muito tempo que Zinho não visitava o zeide, que morava na Floresta… da Tijuca.

— Kapalezinho Vermelho, leve essas bolinhas de kneidale e esse  guefilte-fish fresquinho para o teu zeide que mora na Floresta! — recomendou dona Sara.

A mitsvá de honrar pai e mãe Isso inclui "zeides" e "bobes" (avôs e avós) que são os pais dos nossos pais. O Talmud ensina que devemos prover as necessidades físicas e espirituais dos nossos pais com alegria e presteza.

… Kapalezinho Vermelho pegou a cestinha que dona Sara havia  preparado para o zeide, e saiu pela via Dutra com o seu carro "zerinho" rumo à Floresta (da Tijuca), cantando assim:

" Pela via Dutra, eu vou com o zerinho, levar esse rango para o meu zeidinho...

Ele mora longe, nos "States" ia maneiro… mas aqui na Dutra levo o ano inteiro!"

Apesar dessa alegria toda, Zinho tomou 3 multas logo de cara: uma por excesso de velocidade, uma por passar pelo bafômetro e outra por estar sem cinto.

Kapalezinho Vermelho não teve culpa nos incidentes: para poder chegar antes de anoitecer no Rio, havia devorado em segundos uma bacia de kuguel doce que dona Sara recém havia preparado, sem deixá-la esfriar.

O efeito laxativo do kuguel quente acometeu Zinho de uma vontade olímpica de ir ao banheiro. Zinho pisava no acelerador e no breque com os pés trocados porque cruzara as pernas para evitar sujar o seu "zerinho".

Mas isso fez com que o zerinho disparasse a 240 Km/h e isso chamou a atenção de um guarda rodoviário, que deduziu que Zinho estava bebum.

Ora, Zinho só bebia o vinho do Kidush no Shabat, por isso passaria fácil pelo teste do bafômetro. Mas sua imprudência fez com que quase atropelasse o guarda, assustando-o a ponto de fazer com que este jogasse o bafômetro longe, que foi parar embaixo das rodas do zerinho de Zinho, que passou pelo  bafômetro, transformando-o numa panqueca de plástico com ponteiro.

Quando o guarda finalmente alcançou Zinho, não comprou a idéia de que este tinha pressa para ir ao banheiro por causa do kuguel e por isso enfiou por engano o seu suspensório na fenda do cinto de segurança ao invés do cinto, não viu o bafômetro cair à frente do carro e que nem tinha como controlar a velocidade de um carro a 240 km/h, com o pé esquerdo no acelerador e o direito no breque.

O guarda não se convenceu. Zinho levou as 3 multas do mesmo jeito. Mas Zinho confiava em que Hashem faz tudo para o nosso bem. - Gam zu le Tová (isso também é para o bem), disse Zinho e prosseguiu com fé e alegria rumo ao seu querido zeide.

Sua recompensa por confiar em Hashem não tardou a chegar.

Um patrício americano estava de visita a S. José dos Campos para comprar um avião no ITA e já se encontrava a caminho do Rio de Janeiro para passar o Shabat, quando notou perplexo que havia um judeu de kipá sendo multado, do mesmo lado da estrada.

O patrício se achegou a Zinho e perguntou-lhe em idioma estrangeiro: - Nu?  (tradução: Oi amigo, sou novo por aqui, o que houve, te multaram?)

Zinho lhe contou o que houve. Também revelou ao nosso patrício que tem um Beit Chabad ali mesmo, em S. José dos Campos, orquestrado pelo grande Rabino David Azulai. O patrício ficou tão contente, que se ofereceu para pagar todas as multas de Zinho e ainda por cima encomendou 5.000 kapales para a Sinagoga da sua cidade!

(intervalo)

Se Zinho pensava que seus problemas terminavam por ali, e que a viagem para cumprir a mitsvá de Kibud Horim (honrar os pais) ia lhe sair barata, estava redondamente enganado.

Seu arqui-inimigo nos guisheft (negócios), que tentava fazê-lo abrir concordata para ficar só no negocio, soubera de sua viagem e logo tratou de tirar proveito da situação Tratava-se do famigerado... Lábio Mau!

O Lábio Mau era conhecido assim porque dizia muito "lashon-hará" (comentários maldosos sobre outrem, ainda que verdadeiros).

A Torá e explícita: É proibido fazer quaisquer comentários sobre a vida alheia, mesmo que verdadeiros, mesmo que não pareçam nada de mais, mesmo que a pessoa concorde.

Um conhecido sábio que trata do assunto é o Chafetz Chaim, que viveu na Polônia na primeira metade deste século (da era comum). Sua obra, "Shmirat HaLashon" explica tim-tim por tim-tim todas as regras de se educar uma boa língua, um dos assuntos mais importantes do Judaísmo.

* * *

Bem, o Lábio Mau havia chegado no metiê dos kapales depois de Zinho, por isso tentava roubar-lhe a clientela espalhando por aí que Zinho pagava os empregados com a atraso, descumprindo a mitsvá de pagar os serviços de um diarista em dia (beyomó titên s´charó), o que tornaria os Kapales Zinho não casher.

Mesmo que fosse verdade, Lábio Mau não tinha direito de contar "lashon-hará" sobre Zinho. Se o caso fosse verdadeiro, ele teria a mitsvá de mostrar de maneira amistosa ao Zinho seu erro (mitsvá da tochechá) e não sair por aí lashonarando-o.

Talvez por isso seus negócios sempre iam mal enquanto Zinho galopava nas vendas.

Mas a Superkapales Corporation, de Lábio Mau, estava sempre endividada, pois torrava seu capital em fotos com soçaite carioca ao invés de se concentrar nas vendas.  [Hashem é meticuloso em premiar aqueles que cuidam da língua]

Zinho já estava no meio da estrada quando vira um helicóptero passando por cima do seu carro: era o Lábio Mau, tentando chegar antes ao zeide. Como cumpria a mitsvá de julgar favoravelmente as pessoas, Zinho imaginou que a Superkapales teria um bom guisheft a vista no Rio e nem se preocupou. Ate lhe deu uma brachá para ter sucesso nas vendas.

Mas os planos do Lábio Mau eram ignominiosos: ao chegar até o zeide, logo lhe presenteou com uma entrada para um concerto de "Chazanut" no Maracanazinho, sabendo que o zeide era vidrado em Chazanim (Cantores Litúrgicos Judaicos).

Após livrar-se do zeide, Lábio Mau entrou debaixo das cobertas e ficou a espera de Zinho.

Quando chegou, Zinho notou a figura estranha que estava na cama, e pensou: "Puxa, o zeide deve estar doentinho mesmo, os kneidales e o guefilte-fish vieram bem a calhar".

Dirigindo-se ao zeide com a cestinha nas mãos, perguntou-lhe:

- Zeide, porque esse nariz tão grande?

- É de tanto cheirar "bessamim" na Avdalá , meu netinho...

-  Zeide, porque essas orelhas tão grandes?

-  É de tanto escutar atrás das portas dos out..., digo, de tanto escutar Chazanut!

- Zeide, e porque esses olhos tão grandes?

- É de tanto ler Tropicasher, meu netinho!

Zinho ficou desconfiado: o zeide não tinha Internet, por isso ele havia encadernado todas as edições de Tropicasher para lhe dar de presente.

O Lábio Mau percebeu a rata que deu e se preparou para o bote.

Zinho já ia pegando o seu prodigioso livro de Tehilim para dizer uns salmos e espantar o intruso... quando balbuciou a ultima pergunta:-

- Zeide, e porque essa boca tão grande?

- É PRA DIZER BASTANTE LASHON HARÁ!!!!!   

Dito isso, Lábio Mau saltou da cama, abriu as janelas da casa, pegou um possante megafone e gritou:

- Atenção pessoal! Kapales Zinho é fria da braba! Amarrota e solta os fios logo na primeira rezada!!! Compre Superkapales e vá para o Céu sem escalas!!

Foi quando ouviu-se outro megafone, mais possante ainda, do lado de fora da casa, com direito a eco, que nem nos filmes:

" - Atenção, atenção, Lábio Mau! Você esta cercado! Saia da casa de braços levantados e com as mãos tapando a boca!"

Era o comando da temível T.O.A.L.H.A. (Turma Organizada Anti-LashonHará e Abobrinhas)!

O zeide desconfiou logo de cara, quando viu nas entradas que aquele concerto de Chazanut... era em Tel Aviv! Isso foi o suficiente para que ele discasse logo para 1-800-TOALHA.

Lábio Mau foi imediatamente envolvido com o L.E.N.Ç.O. (Linguajar Espiritual, Nunca Caluniando os Outros), e teve de passar uma semana na sede da T.O.A.L.H.A., até saber de cor toda a obra do Chafetz Chaim sobre a proibição de lashon hará.

O resultado foi excelente: Lábio Mau fez Teshuvá (correção dos atos de acordo com a Torá) a tal ponto, que passou a ser conhecido por um novo nome: Ohev Israel! (aquele que tem amor por todos os Judeus

Ao chegar a S. Paulo, Ohev Israel foi direto até Zinho pedir-lhe desculpas por todo o incômodo e perguntou-lhe como podia lhe recompensar pelo mal que havia feito.

- Meu querido, você jamais me fez mal algum. Está perdoado. Se foi para você fazer Teshuvá e ser o cidadão respeitável que é hoje, todo esse episódio valeu a pena!

Assim, nossos dois amigos resolveram juntar os seus guisheft e lançaram ao mundo a possante franquia: Superkapales Zinho Multicor!

    .... E ficaram ricos para sempre.

* * *

Essa história é dedicada ao meu zeide, o Vovô David, que chegou ao Rio de Janeiro vindo da Polônia, e que costumava doar parochet (mantos que cobrem a Arca onde fica a Torá) a sinagogas do interior de S. Paulo, entre elas, Taubaté. O zeide partiu quando eu tinha cinco anos de idade, e a única coisa que guardo dele é o seu velho Sidur (livro de rezas) de 1932, que mandei restaurar, com o qual rezo com tanto gosto e que espero poder passar para meus filhos, se D-us quiser.

"Quem será o 'zeide' dos nossos netos?" diz uma canção judaica atual.

Se cuidarmos e cumprirmos a nossa Torá com carinho, sem ter vergonha de aprender, e se esforçando hoje um pouquinho mais que ontem para cumprir mais uma mitsvá, um dia também poderemos ser "zeides, ao invés de sermos simplesmente "vovôs".

Zaiguezint,

Paulo R. Rosenbaum

 

Conheça também as estórias da Schleperela e da Bronca de Leve clicando em www.jewishbrazil.com/lendas.htm