
o autor em
Thornhill (ao norte de Toronto, ao fundo Sinagoga Sefaradi de Tanger)
O destino inicial era
Miami, mas um forte vento espiritual acabou me levando a Toronto. Faltava uma
semana para Pessach e a neve não havia acabado de derreter. Um amigo fizera os
arranjos para dormir e comer durante os dias da festa. Que organização! Oito
dias de festa. Dez refeições. Dez famílias diferentes. Tudo batendo como um
relógio. De repente, surgiu um problema dentário! No problem. Um dentista
patrício abriu o consultório para me atender, senão... de que modo eu morderia
a Matsá?
A festa de Pessach passou e
fiquei encantado com Toronto. Melhor dizendo, com a comunidade judaica local,
com a qual conviveria pelos próximos quatro anos, embora tivesse ido passar
apenas alguns dias. Uma comunidade vibrante, unida e que sabe aproveitar o
melhor do que o Judaísmo e Israel têm a oferecer. É impossível descrever em
poucas linhas todas as características do Ishuv canadense, por isto delinearei
apenas o essencial. São 114 mil judeus no Canadá.* A maioria vive no que se
conhece como GTA (Great Toronto Area), que inclui a cidade de Toronto e
suburbios adjacentes como Richmond Hill e Thornhill. Este último vem se firmando
como polo principal de migração e imigração judaica e isto inclui parte da
comunidade Sefaradi que vivia em Montreal, judeus da ex-União Soviética,
America do Sul, África do Sul e Israel.
Toronto é uma cidade que
encoraja o diferenciamento étnico, por isto cada grupo cultural tem o seu
bairro: Portuguêses, Gregos, Hindus, Italianos, Chineses, Espanhóis,
Paquistaneses e Russos tem bairros e ruas com característica própria. De alguma
maneira isto também influenciou os judeus: Toronto tem uma Sinagoga onde só se
fala hebraico, uma Sinagoga russa e outra para os judeus sulafricanos, que
mantém laços sociais e culturais diferenciados mesmo sendo originários de um
país de língua inglesa. A maioria da população judaica vive ao longo da
Bathurst Street, que começa no centro da cidade e cresce quilometricamente rumo
ao norte de Toronto. Alías, no Canadá mede-se as distâncias em quilometros e a
temperatura em graus Celsius (influência francesa) mas pesa-se em libras e
mede-se a altura em pés (influência inglesa).
Conforme subimos a Bathurst
Street começam a aparecer Sinagogas e placas com dizeres em hebraico de
restaurantes casher, clubes e diversos tipos de instituições judaicas, escolas,
Ieshivot e até profissionais liberais que colocam placas em hebraico ou russo
para aumentar sua clientela. Toronto parece um tabuleiro de xadrez, com suas
retas e perpendiculares matematicamente perfeitas. Tudo se localiza pela
intersecção de uma rua que vai de norte a sul, com outra que vai de leste a
oeste. As principais transversais da Bathurst que abrigam a comunidade judaica
são a Eglington, Wilson, Lawrence, Finch, Steeles e Clark. Grande parte da
comunidade ortodoxa, por exemplo, vive entre a Wilson e a Lawrence. Os judeus
russos e os israelenses vivem ao longo da Steeles e o pessoal modern orthodox,
imigrantes de outros países e jovens famílias vivem em torno da Clark. Eu
morava na Bathurst com a Arnold Street, entre a Steeles e a Clark. É assim que
você diz seu endereço em Toronto.
Na Arnold Street fica o
Beit Midrash Bar Iochai, do Rabino Shalom Revach Shalita, autoridade rabínica
respeitada em todo a cidade. Ali passei dois anos estudando textos judaicos
sagrados, o que ajudou muito na hora de traduzir estes livros para o Português.
Além disso, costumavamos reunir uma vez por semana uma turma considerável de
imigrantes judeus da America Latina para estudar Torá.
Como
dizíamos no início, a semana de Pessach terminou e tudo voltou ao normal. Eu
havia alugado um basement (apartamento na planta baixa de um imóvel) de
uma família de judeus russos baalei teshuvá que haviam chegado de
Israel. Então resolveu nevar de novo, em plena primavera, algo como uma
saideira do inverno. Despreparado, me resfriei e tive que mofar em casa por uma
semana. Qual não foi minha surpresa logo no primeiro dia de gripe, quando ouvi
alguém bater à porta e exclamar em Espanhol: – señor Pauliño Rosenbaum? – Xim,
respondi com nariz entupido. A voz foi abrindo a porta devagarinho. – Mi nombre
es Medina y te traigo comida para la semana. No te muevas de la cama, te la
acerco a ti.
O senhor Medina era gabai de uma das
Sinagogas Sefaraditas locais, de judeus tangerinos. Um amigo o havia encontrado
no supermercado e contou que eu estava muito gripado. O senhor Medina fez uma
baita compra, com direito a suco de laranja natural e um montão de coisa boa e
me trouxe até o basement. imagine que você está doente, sozinho, num
país onde nunca esteve e que alguém bate na tua porta com as mãos carregadas de
compras. É ou não é uma sensação maravilhosa? O senhor Medina me convidou para
o primeiro Shabat em que tivesse disposição para sair na rua onde comeria
comida marroquina superapimentada e ótima para afastar qualquer gripe.
Demorou um pouco para saber
como viver o cotidiano (e principalmente o Shabat e suas leis) num país de
clima frio como o Canadá, mas não demorou nada para conhecer a enorme
hospitalidade da sua comunidade judaica. E isto incluia tanto os nascidos no
país como os imigrantes e os israelenses, que tem duas revistas e uma estação
de rádio. A comunidade ortodoxa também tem sua estação de rádio, com canções
típicas e aulas de Torá o dia todo exceto Shabat e festas, obviamente.
O que mais me impressionou no Canadá
judaico é a unificação das suas instituições: todos os setores da comunidade judaica,
dos mais ortodoxos aos reformistas e laicos, estão representados na Federação
Judaica local. Um Beit Din (tribunal rabínico) unificado faz conversões
ortodoxas e rege as leis de cashrut para todos. Fiquei surpreso e ao mesmo
tempo orgulhoso ao ver uma placa pedindo doações ao UJA (United Jewish Appeal)
no gramado de uma escola judaica “ultra-ortodoxa” só para homens. Diga-se de
passagem, a comunidade judaica canadense é veementemente sionista e apoia
Israel de todas as maneiras possíveis, organizando feiras, exposições,
facilitando contados comerciais e culturais.
A facilidade para obter comida
Casher e um Minian para rezar de todos os tipos e horários também é uma marca
de Toronto. Eles têm hipermercados com várias alas Casher, que incluem rotisserie,
patisserie, diversas geladeiras com queijos casher de vários países, outras com
salames light de Israel, trocentos tipos de saladas judaicas e uma padaria
casher à la italiana com uma variedade de pães que nunca vi. Olha só isto:
comprei um pão ciabata Casher fatiado, por 1 dolar canadense. Na ala não casher
tinha o mesmo tipo de pão por 1,20 dolar. Também tem uma loja só de vinhos
Casher de todo o mundo.
Obviamente, não podemos esquecer
Montreal. Cidade bilingue no passado, foi se tornando monocultural, ao
contrário de Toronto. Em Montreal reina o francês. Poucos anos atrás o dono de
um estabelecimento foi forçado a trocar a placa do seu negócio porque a palavra
“Casher” em hebraico excedia em tamanho à mesma palavra escrita em francês.
Apesar disto, Montreal oferece uma enorme gama de serviços judaicos, com seus
restaurantes Casher de fazer inveja (experimente a pizzaria Casalinga),
Sinagogas de todas as tendências e um maravilhoso centro cultural e esportivo
judaico (J.C.C.), onde quase só se fala Inglês e até a cafeteria é Casher. Vale a pena visitar sua
Spanish-Portuguese Synagogue. A cidade não é quadradinha como Toronto. A
maioria dos judeus vive no bairro de Côte-St-Luke, chamado caricaturamente de
Côte-St-Jew e nas ruas e avenidas perto da estação de metrô “Plamondon”.
Outras cidades canadenses com vida
judaica expressiva são Vancouver, Winnipeg (onde vive uma comunidade organizada de judeus argentinos),
Calgary, London, Windsor e Halifax.
É conhecida a anedota em que Moisés
dizia aos judeus para irem a “Ca-ca-ca... naã”, quando na verdade ele queria
dizer “Canadá”. Quem visita este Ishuv fica realmente impressionado com sua
pujança e enorme movimentação – um verdadeiro molde para as comunidades
judaicas da Diáspora.
Paulo R. Rosenbaum
* Fonte: http://www.jewishtorontoonline.net