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LENDAS DO FOLCLORE TROPICASHER

 A.L.I.C.E. no País das Mitsvót

Glossário no final da estória

 

PARTE I - ONDE FICA QUANDO?

- Estou atrasado, estou atrasado, estou atrasado!

A.L.I.C.E. tentava se concentrar para fazer a massa da Chalá chegar ao ponto certo, quando foi perturbada por um coelho gigante que passou rente ao parapeito da sua janela.

Era Purim e naquele ano a data caía antes do Shabat, por isto o rabino da cidade se apressava em entregar loguinho os seus Mishloach Manot, pois no Shabat já não poderia carregá-los em domínio publico a menos que a região tivesse Eruv.

Em Purim é costume fantasiar-se para celebrar os milagres ocultos, mascarados, que Hashem faz por nós.

Por isto o rabino decidiu fantasiar-se de coelho, que é para se dar mais velocidade.

Aviva Lea Irit Carmela Elitsura, era mais conhecida pela alcunha de A.L.I.C.E. Seu nome era homenagem às suas avós. Com permissão do leitor, vamos remover os pontinhos e chamá-la apenas de Alice.

O leitor pode pensar que estamos contando páia grossa ou forçando a barra para encaixar um nome de personagem de estorinha em algo sutil, mas é costume judaico chamar pessoas marcantes ou grandes rabinos por siglas, como no caso de RASHI (Rabi Shlomo Itschaki), RAMBAM (Rabi Moshé ben Maimon), REMÁ (Rabi Moshe Isserlich), CHIDÁ (Rabi Chaim Yossef David Azulai), MAHARAN (Moreinu Harav Nachman de Breslav), RASHAB (Rav Shalom Ber), REAIÁ (Rabi Avraham Itschak Hacohen Cook) e tantos outros, de abençoada memória.

Alice era uma Tsadéket de primeira linha, do time de Rivka Imenu, Yocheved, Miriam, Rachel bat Calba Tsavua, mulheres exemplares do povo judeu. Era capaz de visitar um doente, fazer sopinha para um bebê, cozinhar para o Shabat, fazer o download de todos os techos de Torá que recebia por internet e dizer Tehilim ao mesmo tempo. Tudo com exímia humildade e modéstia.  

 - Estou atrasado! Estou atrasado!

Alice não se agüentou dentro das saias e resolveu checar o que estava acontecendo e para onde aquele rabino fantasiado de coelho se dirigia. Faltavam 20 minutos para o acendimento das velas de Shabat e ela não conseguia entender aonde mais aquele rabino poderia ir sem que perdesse o hora. Mas uma breve e longa surpresa a aguardava: aqueles vinte minutos acabariam se transformando numa eternidade sem fim.

Por isto resolveu seguí-lo. Deixou a massa descansando e colocou seus sapatinhos de Shabat para dar um toque mais formal à coisa. Agora vejam que ironia: antes do Shabat os judeus trabalham feito loucos para deixar tudo prontinho e a massa fica descansando. Minutos depois a situação vira: os judeus é que descansam comendo a massa e...

 - Estou atrasado! Estou atrasado!

- Espere seu rabino! Espere! Onde vai com tanta pressa? - Alice quase trombou com o rabino.

- Preciso encontrar-me com a rainha dentro de vinte minutos e ao mesmo tempo preciso entregar todos estes presentes, mais para isto precisaria de dois dias inteiros! O que devo fazer, Cáspite!

- Puxa, não sabia que era tanto assim. Aliás, é a primeira vez que vejo um rabino vestido de coelho em Purim dizendo cáspite. Não fique bravo, please.

- Não estou bravo, meidale. Cáspite é o diminutivo do nome do meu rebe, o grande Carlos Pinchas Tenenboim, cujo nome me inspira paz e sabedoria! Estou simplesmente pensando o que fazer.

- Porque não me conta logo quem é essa rainha e porque ela o preocupa tanto?

- O Shabat é chamado pelos nossos sábios de rainha. Aliás, você também deveria estar se preparando para recebê-la.

- E estava, quando vi o senhor correndo vestido de coelho, por isto deixei a massa descansando e...

- Já sei, já sei, porque a massa descansa antes do Shabat e os judeus descansam depois.

- Como sabe disto?

- Porque estou acompanhando esta estória desde o começo no meu celular acoplado com link direto para o Tropicasher. Agora volte para sua massa e deixe-me ir porque estou atrasado, estou atrasado.

Dito isto o rabino vestido de coelho para Purim começou a correr, sempre olhando para seu relógio digital acoplado ao celular que por sua vez era acoplado ao Tropicasher quando a correia do relógio enganchou-se no avental de Alice e carregou-a junto. O rabino só foi se dar conta trezentos quilômetros depois.

- TREZENTOS KILÔMETROS!!!??? - gritaram assustados o rabino e Alice entreolham-se.

- Ei! Você de novo? Não te pedi para voltar e cuidar da massa?

- Desculpe, eu ia voltar mas a corrente enganchou no meu avental.

- E agora, onde estamos? 

- Rrrrr... o melhor seria perguntar "quando" estamos? - rosnou um gato multicor do alto de um arco-íris.

- Arco-íris? Que boca! Vou já dizer a brachá do arco-íris: Baruch Atá...

- Não, rabino, não diga a brachá do arco-íris - alertou Alice - podemos estar numa terra do faz-de-conta.  

- Exatamentsh! - rosnou em idish o gato multicor - permitam me apresentar: meu nome á Chatúl Abdúl.

- Chatúl Abdúl? Mas isto é nome para um gato idish? - perguntou indignado o rabino.

- Na terra do Quando, é! - respondeu Abdúl. Quando os todos os judeus viverem de acordo com a Torá, os árabes falarão idish! Está proferido nas profecias. Mas é só quando...

- Rabino, já entendi! - relampejou Alice - estávamos tão empenhados nos preparativos para o Shabat, que é quando tudo sai do seu espaço e tempo para penetrar na dimensão do Mundo Vindouro, que viemos para numa dimensão onde tudo que é onde também é quando...

- Isto tudo está é dando um tremendo nó no meu Tsitsit, se não formos já embora, perderemos o Purim, o Shabat e ate o Mundo Vindouro!

- Ora, ora, não se apresse seu rabino... aqui na terra do Quando, tudo acontece exatamente quando tudo parece que já não vai mais acontecer... para poder continuar nesta trilha, vocês precisam viver uma charada:

- Quer dizer "matar" uma charada - complementou Alice.

- No senhora, disse Chatúl Abdúl, com seu indisfarçavel sotaque polishiano, mistura de polish com iraquiano. Aqui na terra do Quando, tudo é vida, pois podemos fazer viver tudo, quando assim o queremos.

- Então solta logo a charada, please, seu gato, pois o tempo está correndo e estou atrasado, estou atrasado!

- Rabi Nachman de Breslav disse para não se desesperar. OK, aqui vai a charada:

"Quantos elefantes passam pelo teto de uma Sucá?"

continua no próximo capítulo. fiquem agora com mais lendas tropicasher em www.jewishbrazil.com/lendas.htm

 

Glossário de termos judaicos e paralelos: 

Chalá: na verdade é uma mitsvá, e ficou mais tarde o nome do pão trançado que comemos no Shabat. esta mitsvá consiste em separar um tiquinho da massa do pão mais ou menos na proporção de uma azeitona grande para dois quilos de massa. tinha de ser dada do Cohen mas como não temos mais Beit Hamicdash (por enquanto) a massa é queimada dentro do forno para não ser jogada no lixo dada sua santidade. Tem até brachá acompanhando esta mitsvá. Dá astral enorme e benção especial para as mulheres que a fazem.

Shabat: dia do "paro". classificado erroneamente como colônia de férias semanal, o Shabat é a própria celebração da existência humana, especialmente indicado para quem quer entender os segredos da Torá.

Purim: quer dizer sorteios. Ficou uma festa judaica onde celebramos o desfecho feliz de um drama teoricamente irreparável. Celebrada com festa e folguedos, é um must comparecer ao Shil neste dia.

Mishloach Manot: talvez a mitsvá mais importante e mais fácil de Purim, consiste em embalar dois ou mais elementos comestíveis e se possível bebestíveis e enviar a amigos durante este dia. Tem a finalidade de exercer no indivíduo profundo carinho e atenção aos que lhe são caros, ou seja todo o povo judeu.

Eruv: cerca ritualmente elaborada em torno de um conjunto de casas ou bairro com a intenção de permitir o transporte de objetos de domínio publico a domínio privado durante o Shabat, pois este transporte incorre numa das 39 proibições que a Torá prescreve para este dia. Outras proibições: escrever, fritar, surfar na net.

Tsadéket: justa, pia, feminino de Tsadik

Rivka Imenu: esposa de Itschak avinu (Isaque). Incorpora o espírito altruísta feminino, carinho sem par pelo seu esposo e diligencia em orientar seus filhos para uma vida sadia, feliz e espiritualmente bem sucedida.

Yocheved: mãe de Moshé rabeinu (Moisés). Parteira oficial, começou salvando meninos judeus das mãos do ignóbil faraó, para logo depois ter de salvar o próprio filho colocando-o numa cestinha que deitou ao Nilo.

Míriam: irmã de Moshé rabeinu. Foi a primeira profetiza de Israel. Em seu mérito Deus dava água com abundância para o povo de Israel durante sua perambulação no deserto do Sinai.

Rachel bat Calba Tsavua: esposa do grande rabi Akiva, mais importante sábio do Talmud. vendia suas tranças para que o esposo pudesse estudar e lecionar Torá e vivia na pobreza mesmo sendo filha de um milionário, que a deserdou porque elegeu o ignorante Akiva para esposo. Mulheres como esta são aqueles que fazem os grandes homens. 

Tehilim: Salmos. Encontram-se nos livros de Tanach e também em edição separada. São pequenas orações que contem clamores, pedidos, reflexões, trechos da Torá e profecias. Servem para serem rezados em qualquer ocasião, sendo que cada um tem um ou mais objetivos determinados, como curar, aliviar, etc.

Brachá para dizer quando vemos um arco-íris: Baruch Atá Ado-nái, Elo-heinu Melech Haolam, Zochêr Habrít ve Ne'eman be'Britó Vekaiám be'Maámaró.

Mundo vindouro - a  continuação de nossas vidas, para onde levamos somente o que fizemos quando estávamos cumprindo o que está na Torá.

Rabi Nachman de Breslav - Um Tsadik que exortava os humanos a viverem com alegria, fé e esperança.

 

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